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Museu do Papel - Terras de Santa Maria

Por Nelson Garrido

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16.01.01 Por Pedro Rios (Fevereiro 2010)

Reciclar não é uma moda recente. É uma actividade essencial, por exemplo, na história do fabrico do papel em Portugal, primeiro com tecidos, mais tarde com papel usado. Pedro Rios (texto) e Nelson Garrido (fotografias) descobriram em Paços de Brandão como se fazia papel a partir de materiais velhos entre os séculos XVIII e XX.


Os tecidos mais cobiçados? Os de algodão e de linho. Eram os que, no século XIX, davam o melhor papel para produzir documentos oficiais - o papel era ainda coisa de elites, a imprensa de massas ainda dava os primeiros passos. Era com trapos que se fazia papel em Portugal até ao início do século XX. E há um ponto do país em que ainda se produz assim papel: no Museu do Papel Terras de Santa Maria, em Paços de Brandão, no concelho de Santa Maria da Feira.

"Ainda fazemos o papel da mesma forma como era feito desde a Idade Média até à Revolução Industrial: a partir de trapos, separados por cor e qualidade do tecido", conta António Marques da Silva. O responsável pela comunicação no único museu do papel do país exemplifica o processo, trazido pelos árabes para Portugal: passa uma pasta fina, obtida depois de bater com maços os farrapos, por uma espécie de peneira. O tamanho da peneira determina o papel da futura folha.

Sem pensar muito no assunto (o método funcionava e isso bastava), muito menos na ainda longínqua noção de ecologia, era reciclando que se produzia papel no antigo Engenho da Lourença (nome da primeira proprietária), onde agora funciona o museu. A lição ecológica não fica por aqui: as máquinas eram movidas a energia hidráulica, que provinha do rio Maior, que passa mesmo ali ao lado. Foi só nos anos 1950 que a fábrica foi dotada de energia eléctrica, que veio complementar a energia do rio, sobretudo nos meses de Verão, altura de menor caudal.

Fundada em 1822, a fábrica funcionou até 1989. Em 2001 foi transformada em museu, com o objectivo de salvaguardar um património industrial com 300 anos de história. "Tal como toda a região de Santa Maria da Feira, Paços de Brandão tem tradição" na indústria papeleira, explica Marques da Silva. Nos séculos XVIII e XIX e no início do XX, a região envolvente "foi líder em Portugal nesta área". A maquinaria no Museu do Papel é oriunda de vários pólos papeleiros do país dos séculos XVIII, XIX e XX.

O método, "trazido pelos árabes", pode ser experimentado pelos visitantes, que são convidados a fazer a sua própria folha de papel de algodão ou linho. "Pode-se mexer em tudo", sublinha Marques da Silva, que se orgulha por trabalhar num "museu em actividade", que já recebeu a visita de 79 mil pessoas. Ao longo de cada visita, que dura cerca de 45 minutos, há um guia que dá a possibilidade aos "visitantes" de trabalharem como papeleiros.

"Farrapeiros" e "botadeiras"

Para estar pronta, a nossa folha de papel terá ainda de secar "numa espécie de estendal" no piso superior, a Casa do Espande, com as janelas abertas em caso de tempo seco. Na Casa do Espande, somos convidados a colocar uma folha de papel a secar, como se fôssemos uma das "botadeiras" que aqui trabalhavam - operárias assim baptizadas porque "botavam [regionalismo que significa "pôr"] o papel a secar". O processo ficava ali praticamente concluído, com excepção de algumas encomendas, que pediam que o papel fosse alisado, na Casa do Lixador - em tom de brincadeira, dizia-se que era a casa onde "se lixava o patrão". "Em cada local há uma história de vivência humana" deste tipo, diz.

O método tradicional ocupa a primeira sala do museu, um antigo moinho de cereal transformado em moinho de papel. Uns passos à frente, encontramos a Casa da Máquina, onde decorreu a segunda vida da fábrica. A partir de 1923, o papel começou a ser fabricado a partir da reciclagem de papel velho através de uma máquina de produção em contínuo, que substituiu o fabrico folha a folha. Tinha oito metros de comprimento, 1,7 metros de largura e produzia quatro metros de papel por minuto. Uma revolução à época, mas que faz sorrir face a algumas máquinas actuais: têm um quilómetro de comprimento, dez de largura e produzem 1200 metros de papel por minuto.

"Com o aparecimento da imprensa começou a haver excesso de papel usado", contextualiza Marques da Silva. Os "farrapeiros" andavam de terra em terra a recolher papel usado - o nome ficou, mesmo quando o papel começou a ser feito a partir de papel usado em vez de farrapos.

No século XIX, o papel produzido no Engenho da Lourença tinha como fim primordial a utilização em documentos oficiais. A utilização do papel como suporte de documentos escritos remonta ao século XIII, mas só a partir do século XV surgem as primeiras notícias sobre engenheiros papeleiros em Portugal, com destaque para os que funcionavam junto ao rio Liz, em Leiria. É, contudo, só no século XVIII que a arte de fabricar papel se afirma definitivamente em Portugal. O primeiro moinho de papel do concelho de Santa Maria da Feira data, precisamente, de 1708.

A situação muda com a chegada da máquina de produção em contínuo. A fábrica vira-se para o papel de embalagem. No museu encontram-se ainda mesas e outros vestígios da actividade das sacarias, que existiam na região e ali compravam papel para produzir cartuchos. Era um "método simples que alimentava muitos negócios familiares", antes do aparecimento dos sacos de plástico, nos anos 1970. O plástico "levou a que grande parte destas unidades fabris de pequena dimensão se vissem seriamente ameaçadas". O mercado mudou, mas na região ainda existem algumas unidades papeleiras de referência, como a Zarrinha.

Actividades para crianças

Todas as terças e quartas-feiras, das 10h00 às 11h30, há oficinas para crianças no museu. Na próxima quarta-feira, por exemplo, a partir de um filme sobre a importância da reciclagem, as crianças entre três e seis anos vão proceder à triagem do papel usado, agrupando-o por cor e características, para produzir uma nova folha. As inscrições podem ser feitas através dos serviços educativos do museu (telefone: 227442947; e-mail: educativos@museudopapel.org). Há ainda vários jogos didácticos à venda no museu.

Museu premiado

O museu recebeu uma menção honrosa na categoria Melhor Museu Português dos prémios de museologia da Associação Portuguesa de Museus no triénio 2003-04-05 e o prémio Melhor Serviço de Extensão Cultura, em 2006.

Marcas de água

Para além de maquinaria e artefactos oriundos de vários pólos da indústria do papel, o museu expõe uma colecção de papéis com marcas de água nacionais e europeias dos séculos XVI a XX.

Como chegar

A A29 é uma boa forma de chegar ao museu. Deve sair em direcção a Paços de Brandão, prosseguir na Rua Estrada Nova e, de seguida, na Rua da Pia Dos Cavalos, até encontrar placas indicativas. O museu está situado no número 338, da Rua de Rio Maior, de Paços de Brandão.



Última actualização a 11-10-2012
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