Guialazer

Mosteiro de Lorvão

Por DR

Votos dos Leitores


Média da votação dos leitores, num total de 17 votos
(carregue na posição pretendida para votar)


01.09.11

O Mosteiro de Lorvão encontra-se entre os mais antigos da Europa, já que a sua fundação remonta a meados do século sexto, de acordo com as memórias relatadas pelos cronistas monásticos, corroboradas por uma pedra de ornato visigótico que se encontra incrustada na torre dos sinos.


Nebulosos e lendários são os primeiros séculos da instituição, pois os mais antigos documentos escritos fidedignos apenas surgem na sequência da reconquista cristã de Coimbra de 878. Em 1205 sofreu o mosteiro profunda reforma, levada a cabo por D. Teresa e D. Sancha, netas de D. Afonso Henriques. A sua fama levou-as a alcançar a honra dos altares, em 1705. Os restos mortais das duas santas encontram-se actualmente na capela-mor da igreja. Esta reforma fez de Lorvão a primeira comunidade feminina da ordem de Cister em Portugal.

Na longa história cisterciense de Lorvão contam-se vários períodos de grande fervor religioso e de não menor esplendor artístico, sendo memoráveis os abadessados de D. Catarina d'Eça (1472 - 1521), D. Bernarda de Lencastre(1560 - 1564), D. Bernarda Teles (1712 - 1715 e 1721 - 1724), além de outros. Não faltam, também, épocas de perturbação, umas vezes relacionadas com a eleição de abadessas, como no caso de D. Filipa d'Eça (1537); outra vezes relacionada com a conjuntura política, como sucedeu aquando as invasões francesas ou após a revolução liberal.

Foi, aliás, a revolução de 1820 que provocou a decadência irremediável da comunidade, dando início à depredação de todas as riquezas acumuladas durante séculos. Espoliadas dos seus bens, as últimas monjas de Lorvão acabaram praticamente na miséria. Assim sendo, quase tudo o que resta hoje em Lorvão é fruto das reformas dos edifícios operadas nos séculos XVII e XVIII.

O mosteiro ficou então com quatro dormitórios, noviciaria, hospício e hospedarias, coro, igreja, dois claustros, refeitório, sala capitular, enfermaria, botica, cartório, oficinas, celeiro e outras dependências, tudo em acelerado processo de degradação, implorando por uma intervenção a nível do restauro de pinturas, edifício e imagens. Além da igreja, coro e claustros, restam apenas os cascos do hospício e dois dormitórios. Na fachada voltada ao exterior destacam-se os arcos da portaria e da igreja.

A igreja em si é uma construção magnífica, levada a cabo entre 1748 e 1761, luminosa, de proporções clássicas e monumentais e decoração sóbria. Segue o estilo joanino de Mafra, mas numa visão mais intimista, que é já do rococó. Nela são especialmente merecedores de atenção a porta da entrada, de pau preto e com aplicações de bronze dourado; as grandes telas de pascoal Parente, nos altares sob o zimbório, representando S. Bernardo e S. Bento; os túmulos de prata de santa Teresa e Santa Sancha, feitos em 1715 pelo ourives portuense portuense Manuel Carneiro da Silva, que se encontram nos altares da capela-mor.

Na Sacristia podem-se admirar três grandes tábuas pintadas em 1623 por Miguel Paiva, além de outras obras de pintura, designadamente dos italianos Agostino Masucci e Pascoal Parente. Na Sala do Capítulo encontra-se provisoriamente instalado o museu, que tem peças de grande merecimento artístico. Para além das pinturas, cerâmicas, mobiliário e tapeçaria dos séculos XVII e XVIII, destacam-se as esculturas de São Bento e São Bernardo, de cerca de 1510, além de um Cristo

Crucificado do século quinto. Entre os paramentos admire o véu da píxide, bordado a ouro e aljôfar, assim como um pluvial que, além de belo, foi o único no mundo a ser usado por uma mulher, abadessa do Mosteiro, depois de especial autorização papal. Das peças de ourivesaria são notáveis uma Virgem Maria com o Menino, do início do século XVII, e a custódia, datada de 1760, primorosa obra da ourivesaria de Lisboa. A separação entre a igreja e o coro é feita através da já mencionada grade de ferro forjado, única no seu género no país. Sobre ela deveria erguer-se o órgão de 61 registos, obra de António Xavier Machado Cerveira, datado de 1795 e com a característica invulgar de ter duas fachadas opostas, compostas em delicado rococó.

As suas peças jazem no chão, encostadas na canto do cadeiral que se encontra vazio devido ao incêndio que aí deflagrou em tempos e que consumiu parte do cadeiral de coro, o maior de Portugal. Terminado pouco antes de 1748, é o que mais desperta a admiração num mosteiro velho e cansado e esperar por cuidados. As cadeiras do nível superior são de altos espaldares, únicas no país. Possui delicados ornatos, pela espiritualidade dos santos esculpidos sobre as cadeiras (todos são diferentes) e pela nota de fantasia dada pelas máscaras existentes na parte inferior dos assento (igualmente diferentes). O jacarandá preto do Brasil e a nogueira, únicos materiais utilizados, na sua cor natural, contribuem em grande parte para acentuar a sua beleza. O claustro é um edifício harmonioso mas despido de vida e tido ao abandono, apesar de edificado em duas campanhas: 1597 (arcada do piso térreo) e 1677 (sobreclaustro). É bordejado por 13 capelas devocionais, actualmente despojadas, construídas durante todo o século XVII, a partir de 1601.

Para visitar o Mosteiro procure na vila pelo sacristão da igreja, uma vez que actualmente não existe um guia nem visitas guiadas. Na passagem por Lorvão não deixe de provar a doçaria conventual, da qual se destacam os pastéis de Lorvão, disponíveis em qualquer café.

Nas instalações do antigo convento existiu um hospital psiquiátrico, que fechou a actividade em Julho de 2012 e é agora um espaço destinado a actividades comunitárias, turísticas e culturais. Antes do encerramento, os doentes passeavam pelos jardins e pelo centro da vila e não era raro o visitante ser interpelado com pedidos estranhos.

Seguindo a estrada em direcção a Sernelha, poderá visitar o Forno do Pisão, cujas ruínas ainda podem hoje apreciar-se. Tratava-se de uma construção sólida, de pedra, de forma cilíndrica, mantendo-se a entrada e as paredes intactas, até uma altura de aproximadamente quatro metros. Faz parte de um conjunto bastante significativo do ponto de vista do património industrial, que integra um lagar de azeita e um moinho de água, uma casa de tipologia rural e o próprio forno de cal. Será o moinho mais antigo existente, provavelmente do início do século XVIII, onde era pisoado o linho para o mosteiro.

PÚBLICO

Se algum destes dados não estiver correcto, diga-nos.