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Por Vítor Belanciano, em Madrid

É estrela, porque simplesmente decidiu que é. Dizem que é a nova Madonna. Ela preferia ser o novo Warhol.


A maior parte, numa sessão de entrevistas, longe da mira dos fotógrafos, prefere adoptar uma atitude solta e envergar uma roupa confortável. Mas Lady GaGa não é uma qualquer. Olha-nos nos olhos, desafiante. Responde com voz afectada, num estilo muito nova-iorquino, sem hesitações, frases curtas. E a roupa? Difícil de descrever. Ajustada, talvez. Com decote generoso, pareceu-nos. Extravagante, para a maioria.

Lady GaGa, ex-Joanne Stefani Germanotta, 22 anos, nova-iorquina, claro, é uma estrela. Age como tal, logo é. Os "paparazzi" adoram-na e perseguem-na, mas ela prefere falar de Warhol ou Damien Hirst. Os que gostam dela descrevem-na como uma combinação de Madonna, Kylie Minogue, Blondie e Scissor Sisters. Os cínicos dizem que é mais uma espécie de Britney Spears ou Christina Aguilera com algumas presunções.

Goste-se ou não, "The Fame", álbum de estreia, combinação de "disco", pop electrónica e rock, com toque de burlesco, é um dos maiores sucessos dos últimos meses. Canções como "Just dance" estão nos lugares cimeiros dos tops de vendas do mundo. Fomos conhecê-la a Madrid.

O seu álbum chama-se "The Fame". O que pensa de personalidades famosas como as irmãs Paris e Nicky Hilton, com quem andou, na adolescência, num colégio privado?

Respeito-as, mas preferia não ter que falar disso. Preferia falar sobre mim e não sobre a actividade de outros artistas.

Mas quando refere alguém como a [designer de moda] Donatella Versage está a falar da actividade de outra artista. 

Talvez, mas aí estou a falar de alguém que conheço, com quem tenho estado em contacto e de quem sou admiradora.

Revê-se na máxima de Andy Warhol de que um dia todos teríamos direito a quinze minutos de fama?

Revejo-me na ideia de que todos podemos ser famosos, se o conseguirmos afirmar e se tivermos a atitude correcta.

Mas, mesmo assim, é necessário que os outros acreditem.

Sim, mas tudo começa em nós. Andy Warhol, ele próprio, é um excelente exemplo. Talvez o melhor. Na verdade, não conheço ninguém que tenha percebido melhor o que é isso da fama do que ele. Gostava de ter sido a sua musa.

Há famosos para todos os gostos hoje em dia, qualquer pessoa o pode ser, é isso?

O meu álbum é sobre isso. Reflecte o facto de qualquer pessoa poder ser famosa deste que tenha a atitude certa.

Quem poderia ser o Warhol dos nossos dias?

Eu?.. [risos] Talvez [o artista plástico] Damien Hirst. Admiro o seu trabalho e a maneira como o consegue projectar.

As reflexões sobre a morte são centrais na obra dele, inclusive a "morte de Deus". Como reage uma católica a isso?

O mundo seria uma chatice se não existissem pessoas como ele que põem as coisas em causa. Sou religiosa, mas não tenho que aceitar todos os mandamentos da instituição igreja.

Esse é um argumento muito utilizado. Mas se não se acredita no Pai Natal porque é que se finge que acredita?

Temos necessidade de fantasias para acreditarmos. 

Uma das suas canções chama-se "Paparazzi". Agora, que é famosa, como reage quando é perseguida por eles?

Em Nova Iorque não tenho esse tipo de problemas, mas em Londres é complicado. Sou loura, escrevo sobre fama, dinheiro, erotismo. Sei que sou um alvo. Mas também quero ser levada a sério, por isso não respondo a algumas perguntas e resguardo-me de algumas situações.

Começou no submundo da arte e da boémia nova-iorquina. Quando se está no meio do "underground", a atitude a adoptar é ser o mais pop possível. Foi isso que fez?

Claro... [risos] Toda a gente, à minha volta, fazia o mesmo. Copiavam-se uns aos outros. Tinha que fazer diferente. E fiz.

Ter tido uma aprendizagem clássica de piano ajudou-a?

Muito. Bach e a maior parte das coisas clássicas que tocava quando era mais nova têm uma estrutura muito semelhante às canções pop. Mas deu-me, essencialmente, disciplina.

Quando está a compor uma canção, pensa, em simultâneo, como a vai expor - nos vídeos ou nos espectáculos?

Sim, tenho uma visão completa. Uma canção é um conjunto de coisas, uma "performance" total. Quando estou a compor, imagino-a como uma pequena peça de teatro. Sempre gostei de pop e teatro. Quando descobri David Bowie, percebi que podia juntar isso. O imaginário que uma canção pode despertar, o visual, a roupa que ela pode aludir, tudo isso me interessa. No fim de contas, cada canção é uma pequena obra de arte pop.

Se tivesse que eleger apenas um elemento para descrever o que atribui unidade ao seu trabalho, qual seria?

Eu.

O que quer dizer?

Sou eu que faço os meus discos, logo, os meus discos sou eu. É aquilo que eu sou que lhes atribui unidade.

Parece segura do efeito que é capaz de provocar. Não foi surpreendida pelo sucesso que está a obter?

Estou excitada. Trabalhei durante muito tempo para que as minhas músicas fossem tocadas na rádio. Nesse sentido, foi surpreendente e excitante, mas também tinha consciência de que tinha um bom disco, acreditava nele.

É muitas vezes comparada a Madonna. Agrada-lhe?

Tenho muito modelos, tenho muitas influências, como toda a gente. Quando estou a escrever, ou quando estou a planear um espectáculo, é natural que todas essas influências se façam sentir. Madonna é certamente alguém que ouvi na minha adolescência, é uma italo-americana como os meus pais, e gosto muito dela.

Na sua música, e no imaginário que projecta, existe grande influência de Nova Iorque. É a sua cidade?

É a minha casa. Amo-a. Adoro os nova-iorquinos.

O que têm de diferente?

Não sei explicar.

O que nos está mais próximo é mais difícil de explicar?

Talvez seja isso. Os meus amigos "gays", por exemplo, estão sempre a incentivar-me de uma forma incrível. Em Nova Iorque, não tenho que lutar, essa é a grande diferença. Aceitam-me como sou. No resto dos EUA é diferente.

O que a motiva na escrita das letras?

Nova Iorque, os amigos, as minhas crenças, o amor, a arte e a ideia de que a fama é qualquer coisa que tem que vir de dentro.

Nos espectáculos ao vivo, actua ao lado de uma série de bailarinos e de um DJ. Nunca pensou ter a sua banda?

Os DJ não são músicos?

Ok, apanhou-me. São, mas, ao nível do grande público, ainda parece existir a ideia de que não são.

Bem, estão enganados. Foram os DJ que me fizeram chegar até aqui. Quero tê-los perto de mim, sem dúvida.

Que tipo de atmosfera tenta criar ao vivo?

Uma atmosfera maior que a vida, intensa, forte, como se fosse Nova Iorque às 4 da manhã num clube de dança.

Quando Madonna apareceu nos anos 80, muitos previram que seria esquecida no momento seguinte, mas afinal aos 50 anos ainda anda por aí. Para muita gente, também parece ser uma estrela descartável.

Eu sei, mas não estou preocupada. O futuro não tem limites, estou muito excitada com ele. Não tenho medo.

Nem do segundo disco?

Não. Será apenas um disco. Não é uma audição.

Nos últimos anos, muitas mulheres cantoras conseguiram impor-se, dominando os tops. Alguma explicação?

Há muito tempo que não há por aí grandes bandas rock, com algumas excepções como os White Stripes. O Jack White é um dos melhores guitarristas desta geração, mas o rock & roll está moribundo. As pessoas acharam que era tempo de mudar. Não é melhor ou pior, mas é agradável ver as mulheres a dominar.

Como viveu a eleição de Barack Obama?

Como sendo uma grande inspiração. Os americanos são brilhantes. Temos tido mudanças históricas incríveis e parece-me que esta foi uma delas. Voltei a ter orgulho em ser americana.

Já podemos falar sobre Paris e Ricky Hilton?

Não.