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Fábrica do Braço de Prata

Por Miguel Madeira

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29.10.07 Por Kathleen Gomes

Uma velha fábrica de armamento converteu-se, em Junho de 2007, num espaço cultural. É um T13 cultural numa zona de Lisboa eternamente adiada, fora de mão, sem hábitos culturais, que já tem hora de ponta, "hype" (subitamente, é o sítio onde toda a gente quer fazer alguma coisa), todo o tipo de públicos e até fiéis a dizer que isto já não é como era no princípio.


É sexta-feira à noite (qualquer sexta-feira à noite, desde que não chova) e o parque de estacionamento está lotado. Fila para o café, fila para entrar, fila para sair, feira de antiguidades à porta, lançamento de livro, quarteto de jazz na sala ao lado, Annie Hall de Woody Allen na sala do fundo, livros onde quer que possa haver livros, casa grande mas casa cheia.

Esta noite é assim, amanhã pode ser astronautismo mental (a sério), uma comunidade de leitores, filmes experimentais dos anos 20 e 30, uma sala forrada a fotografias das férias, e o fim do mundo de quarta a sábado (já lá vamos). Parece não haver nada que não possa acontecer aqui. Como é que se define um lugar assim?

"Viu ontem? Muitas noites são como ontem", diz Nuno Nabais, 50 anos, no dia seguinte. Barba branca como uma máscara socrática, este professor universitário de Filosofia é o ideólogo (e idealista) da Fábrica de Braço de Prata. Há pouco mais de quatro meses seria fácil julgá-lo louco. Ele próprio parece um pouco espantado pelo que está acontecer. "Isto está a ter um sucesso que ultrapassa as minhas imagens mais felizes."

É sexta-feira à noite e até o Bairro Alto parece ter feito um desvio para passar por aqui (e toda a gente sabe que o Bairro Alto não costuma fazer desvios). É a prova de como a Fábrica de Braço de Prata mexeu nas rotinas da cidade. E, não, não tinha tudo para dar certo: era muito espaço numa zona incógnita de Lisboa (Poço do Bispo), com mais voluntarismo que bom senso (ou dinheiro) por detrás. A Fábrica de Braço de Prata abriu, a 14 de Junho, antes de estar pronta: ainda havia salas desocupadas e em ruína. (Mas fez-se a festa e foi concorrida: "Tivemos aqui mais ou menos 800 pessoas", resume Nuno Nabais.)


Depois da pólvora, livros

Antes de ser isto, a Fábrica de Braço de Prata foi mesmo fábrica de munições e armamento (a menina-dos-olhos era a pistola-metralhadora FBP de 9 mm), cujo pico de produção, diz a Wikipédia, coincidiu com a guerra colonial. Hoje há livros no lugar da pólvora: a justiça poética está à vista para quem a quiser ver.

Com o desmantelamento da fábrica, a propriedade foi vendida à empresa de construção civil Obriverca, que, juntamente com a Somague, tinha planos ambiciosos para esta zona: erguer aqui a urbanização Jardins de Braço de Prata, projectada por Renzo Piano, uma obra embargada em 2002.

Foi o irmão de Nuno Nabais, engenheiro civil e representante da Somague na sociedade dos Jardins de Braço de Prata ("Foi ele que resolveu que devia ser o Renzo Piano a fazer o projecto", diz Nuno Nabais), que lhe propôs que se viesse instalar aqui. Dono da livraria de filosofia e teatro Eterno Retorno, Nuno Nabais fechou as portas em 2005, "por solidariedade", quando a vizinha Ler Devagar, de José Pinho, foi forçada a sair do edifício que ocupava na Rua de São Boaventura, no Bairro Alto. O plano era partilharem casa, o que veio a acontecer, na Galeria Zé dos Bois e na Rua da Rosa, mas sempre "com o sacrifício da Eterno Retorno", diz Nabais.

Apesar da fusão, a livraria respondia apenas pelo nome de Ler Devagar. "Mas metade dos livros eram meus." E Nuno Nabais, que resistira até aí à proposta do irmão - "Parecia-me impossível uma livraria vir para aqui" - resolveu aceitá-la. "Vim para aqui em amuo com a Ler Devagar", admite. Foi coisa de pouca dura. "Mostrei isto ao José Pinho, ele gostou imenso, reconciliámo-nos, retomámos a joint-venture." Quatro ou cinco dias depois, iniciavam as obras de reabilitação. Nabais mobilizou 50 alunos da faculdade. Ao sétimo dia, abriram. "Montámos isto ao ritmo do Génesis."

Nabais tem um acordo de comodato com a Obriverca: não paga renda, mas tem de zelar pela manutenção do edifício. É bom enquanto durar. A má notícia é que é pouco provável que dure para sempre. É mais ou menos como viver com um gigante adormecido debaixo dos pés: mais tarde ou mais cedo, ele acorda. "Este terreno está num lugar nevrálgico da cidade", diz Nuno Nabais. Braço apontado para a esquerda: "Está ali a Expo..." Braço apontado para a direita: "Está ali Santa Apolónia..." Para aqui confluem vários projectos urbanísticos - o terminal TGV, nova ponte sobre o Tejo - que, mesmo não passando de meras hipóteses, dão conta do potencial deste pedaço de cidade. "A Obriverca está com isto embargado há anos, perdem dinheiro todos os dias. Mal seja desembargado..."


Espaço para utopias

É melhor sair, para voltar a entrar (e esboçar um breve roteiro). Bar do lado direito - sala ampla, pé direito alto e luzes baixas, livros pechincha nas estantes, piano vertical de madeira entre as duas janelas que dão para o jardim: vê-se que alguém idealizou uma sala de estar, mais do que um bar; sala de concerto do lado esquerdo, com um pequeno palco e piano (e livros à volta), uma porta que dá para outra sala (mais livros), que dá para outra sala... A Fábrica de Braço de Prata é um espaço matrioska. Doze salas no total, e isto é o que está à vista, por enquanto (na cave, há outros inquilinos a instalarem-se: a artista plástica Joana Villaverde montou aqui um atelier, a banda pop Moi Non Plus alugou outra assoalhada). Quatro salas para exposições, uma para projecção de filmes (Nuno Nabais chama-lhe "cine-teatro") e para o que mais vier, porque uma sala nunca é para uma coisa só. Breve relação dos acontecimentos testemunhados nas últimas semanas no dito "cine-teatro": exposição-concurso de fotografias lomográficas, bar aberto, um jantar, festa com DJ.

E o fim do mundo ali tão perto. O francês Michel não andava propriamente à procura de um espaço, mas havia quatro salas vazias e Nuno Nabais e José Pinho perguntaram-lhe se não gostaria de ficar com uma. "O José Pinho pensava que era para dar aulas de sapateado", ri-se. Isso é o que toda a gente espera dele - "A minha imagem está muito associada ao sapateado. Mas eu tenho outros meios de expressão." E tem outros planos: jam sessions com músicos do conservatório, projecção de filmes, exposições, novo circo (Michel também é programador da sua sala e pretende apresentar outros criadores). Ele define-o como "espaço de criação artística". "Convido performers e artistas a tentar manter uma certa espontaneidade. A ideia é trabalhar o mais possível a improvisação."

É a sala com a personalidade mais forte. Luzinhas de Natal a pender do alto, cromolitografias compradas na Feira da Ladra (gravuras do século XIX em formato de bilhete postal) suspensas de parede a parede - foi uma maneira de baixar o tecto ou de vencer o pé-direito alto - cadeiras de madeira coloridas, uma câmara de vídeo a filmar em directo e em permanência. É aqui o fim do mundo. Não tentem dizer isto em casa, mas Michel baptizou a sua sala de Pétaouchnöck. "É uma expressão francesa antiga", explica, uma espécie de fim do mundo imaginário. "E agora existe", diz, sorrindo.

A programação está sempre preenchida. Nuno Nabais diz que não faz "um telefonema" para programar a Fábrica de Braço de Prata. Não é preciso, as propostas vão ter com ele. Não há uma linha de programação ou "uma estética" e isso é intencional. "Há muitos sem-abrigo", defende, do teatro às belas-artes, gente que ficou de fora, por opção ou à força, do reconhecimento institucional. A Fábrica de Braço de Prata, diz, "pode ser a ilha de acolhimento desses náufragos sem que eles se tenham de sujeitar a um discurso prévio". Um espaço democrático, aberto. Nuno Nabais não faz audições. Quando uma banda aparece pela primeira vez, diz-lhes, simplesmente: "Vêm cá tocar uma quarta-feira. Se gostar, passam a fazer parte dos músicos residentes." Acolhe exposições, mas não cobra percentagem por eventuais vendas.

Até dava jeito, para a prestação de dois mil euros que paga todos os meses com o seu salário de 2300. "Só perco dinheiro com isto. As minhas filhas dizem-me: "Mas que disparate é este?!"" E o que é que ele tem a dizer em legítima defesa? "Neste momento tenho condições para cometer uma loucura. Por outro lado, tenho uma história de militante revolucionário. Acho que isto é um gesto revolucionário. Uma ilha das delícias fora das regras da banca e do Estado. Conseguimos inventar isto sem depender de nenhum subsídio do Ministério da Cultura e sem ter qualquer conversa com um qualquer gestor de uma dependência bancária. Somos dois tipos que têm gozo em criar esta pequena utopia."



Última actualização a 29-10-2007
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