Guialazer

Dom Azeite

Por DR

Votos dos Leitores


Média da votação dos leitores, num total de 1 votos
(carregue na posição pretendida para votar)


15.06.04

É simpático este Dom Azeite, restaurante de Taveiro, bem instalado num antigo e grande lagar de azeite, paredes meias com a sede do "Diário das Beiras", jornal regional. Simpático, não mais. Ou seja, não é uma daquelas casas que nos fazem correr ou desviar da rota para nos sentarmos numa das suas mesas. Mas, caso se passe por lá, pode entrar-se, admirar-se a amplitude das instalações, um bar bem posto logo à entrada e alguns apetrechos do antigo uso, com destaque para duas mós de granito, as mesas amplas e bem ataviadas que não se encavalitam umas nas outras, bem pelo contrário. E come-se o quê, no Dom Azeite? Alguns pratos de comida da região, peixes frescos (robalo, cherne, garoupa, linguado) e amêijoas, visíveis em expositor refrigerado, preparados para a grelha ou para um assado de forno, ou ainda, e de acordo com o espírito do lugar, alguns "à lagareiro". Há, numa ementa que não é extensa, uma excessiva presença de bifes e aparentados, mas deve louvar-se a qualidade da carne, que é arouquesa e da certificada. Um destes dias, fomos quatro almoçar ao Dom Azeite. Cada um escolheu o seu prato, informámos que todos queríamos provar de tudo e o nosso desejo foi satisfeito sem qualquer problema. Louve-se mais esta manifestação de simpatia, que não é comum. Dividiram as doses, que são generosas, sem qualquer remoque e foram ao ponto, uma vez que havia repetições nos acompanhamentos, de os alterar de forma sensata. Para começar, pão e azeite, mais uns pratinhos de salada de polvo, esta sem grande história, que o octópode quase não tinha sabor próprio, mas a morcela de sangue era muito boa (2,75 euros por cabeça, carote). A parte séria do almoço começou pelo bacalhau assado na brasa com batatas a murro (14 euros). Bacalhau de qualidade, gosseiramente desfiado e a banhar-se em bom azeite, vinha acompanhado pelas batatas canónicas, mas agora deram-se ao hábito de não as esmurrar a sério. Façam-no, para que se embebam no azeite e fiquem mais saborosas. Seguiu-se o naco de vitela (16 euros), um bife alto e bem cortado, carne rosada e chorumosa, apenas temperada com sal grosso e grelhada no ponto. O acompanhamento costuma ser de batatas a murro. Como já tinham sido servidas com o bacalhau, serviram-no com batatas fritas e uma salada. As batatas, moles e fritas em óleo já com uso, não prestavam. Podiam antes servir este bom naco de vitela com um arroz de feijão, como às vezes se encontra, e é muito boa companhia. Rojões era um dos pratos do dia do "menu executivo" (11 euros). Pediram-se e não desiludiram. Deve dizer-se que os rojões têm variações regionais. Há os minhotos, barrocos, cuja carne costuma marinar, com temperos, em vinho verde branco e que têm companhia que nunca mais acaba (fígado, tripas enfarinhadas, morcela de cebola ou outra, farinhatos, sangue cozido, batatas ou castanhas, papas ou arroz de sarrabulho...); a generalidade dos das outras regiões, como é o caso destes beirões do litoral, são tassalhos de carne de porco com alguma gordura, apenas temperados com sal grosso, e que fritam, muito lenta e prolongadamente, na sua própria gordura, na qual, antigamente, eram guardados em recipientes de barro vermelho. Estes do Dom Azeite estavam bem cozinhados e foram servidos com batata e legumes (penso que grelos) cozidos, como é normal. Finalmente, provámos um dos emblemas da cozinha regional das terras mais do interior do distrito de Coimbra e algumas do distrito de Aveiro: a chanfana (12,50 euros), confeccionada com carne de gado caprino adulto, tradicionalmente cabra velha. Foi um prato inventado pela necessidade de dar préstimo a uma carne que, à primeira vista, não tem nada de recomendável: é rija e tem um cheiro desagradável a bedum. E fica disponível quando a cabra fica sem préstimo: seca-se-lhe o úbere e a madre. Não dá a cabra nem leite, nem cabritinhos. Só come. E estes bichos são vorazes. É então que se abatem e a sua carne, velha, escura e rija, é cozinhada, longas horas, no forno, em caçoilas de barro, em geral preto, em vinho tinto jovem e taninoso, temperada com sal, pimenta, louro, alho, cebola, cravinho. Fica a carne a soltar-se dos ossos, muito macia, com o sabor marcado pelo vinho e os temperos, um prato contundente. A sua melhor companhia são batatas cozidas com a pele. A chanfana é mais saborosa se comida no dia seguinte ou dois dias depois de ser confeccionada. Serve-se sempre bem quente. A companhia vínica para esta refeição foram dois belíssimos vinhos bairradinos. Belíssimos e bons exemplos da originalidade, personalidade e qualidade dos bons Bairrada: o branco Quinta das Bágeiras Garrafeira 2004 (20 euros); e o tinto Quinta de Baixo Garrafeira 2004 (lote das castas Baga e Touriga Nacional, 35 euros), vinhos bem balanceados, muito apropriados para acompanhar comida sem punhos de renda. Decantado o tinto, o branco também o poderia ter sido, servidos às temperaturas correctas e em copos apropriados (Schot Wiesel), deram brilho à refeição. O serviço, além de esforçado, mostrou-se simpático, como já se disse e repete, por não ser uma atitude assim tão comum nos restaurantes portugueses. David Lopes Ramos (PÚBLICO, 2004)

Se algum destes dados não estiver correcto, diga-nos.