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Santuário do Bom Jesus do Monte

Por Nelson Garrido

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15.10.11 Por Sérgio C. Andrade

A igreja do Bom Jesus do Monte tem dois séculos. É o mais conhecido dos montes sagrados no país, com a sua Via-Sacra num desconcertante realismo naïf. É, simultaneamente, uma estância de turismo, dotada com um elevador pioneiro na Península. Não resistimos à tentação da comodidade e fizemos questão de subir a pé o meio milhar de degraus da Paixão. Lá em cima, admiramos o barroco e a paisagem, e ficamos a saber que se vai voltar a poder "ver Braga por um canudo".


O dia 25 de Março de 1882 marca um momento de viragem na história do Bom Jesus do Monte, em Braga. Não porque essa data tenha alguma relação com o calendário religioso deste que é um dos principais lugares de veneração para a comunidade católica no Norte do país, e uma referência dos chamados sacro-montes, que, na sequência do Concílio de Trento (século XVI), restauraram a experiência crística de Jerusalém. Mas porque, tendo-se aí realizado, nesse dia, a inauguração de um funicular pioneiro no país (ver caixa) -, os cristãos que demandavam esse lugar sagrado passaram a poder (e ter de) optar entre fazer o percurso da Paixão a pé ou de... elevador.

Os registos históricos mostram que, no final desse ano de 1882, o número de visitantes do Bom Jesus subiu de 10 mil para os 76 mil. Mas não é possível calcular o número daqueles que continuaram a subir a pé os 583 degraus que separam o pórtico que assinala o início da Via-Sacra da porta do icónico templo projectado pelo arquitecto Carlos Amarante (1748-1815), e que foi inaugurado fez em Setembro dois séculos - data que é pretexto para um calendário de iniciativas, entre as quais está um Congresso Luso-Brasileiro do Barroco, a decorrer no próximo fim-de-semana (ver caixa).

A reconstituição da Via Dolorosa no Monte de Espinho fronteiro a Braga - e que acolhe dois outros lugares incontornáveis no roteiro turístico-religioso da Cidade dos Arcebispos, o Sameiro e a Falperra (ver caixa) - foi iniciada em 1723, por decisão do bispo D. Rodrigo de Moura Telles (1644-1728). Surgiu num lugar que já tinha história consagrada, e na sequência de outras vias-sacras que então existiam em Braga (no Convento do Pópulo) e noutras localidades do país, com destaque para a do Buçaco, que vinha do século anterior.

Diz a lenda associada à História que, na batalha do Salado (1340), em que Afonso IV se reuniu a Afonso XI de Castela para lutar contra o reino muçulmano de Granada, participou o arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira (1280-1348), e que a vitória dos cristãos foi ajudada pela intervenção de Santa Cruz do Monte. A assinalar o patrocínio divino, o arcebispo mandou erigir no monte bracarense uma primeira ermida, que depois seria substituída por uma "fermosa capela com imagem milagrosa, assistida de ermitães e festejada por grandes despesas pelos melhores da Cidade" (segundo uma citação do historiador Carlos Alberto Ferreira de Almeida), que, no início do século XVIII, daria lugar ao actual tempo projectado por Carlos Amarante.

Jerusalém restaurada

O Bom Jesus que hoje conhecemos é o resultado da justaposição de diferentes intervenções ao longo dos anos. E a melhor forma de entender isso é mesmo esquecer a comodidade do elevador, e deitar os pés às escadas - porque é esse o sentido certo da Via-Sacra.

Um primeiro lanço de degraus faz-nos passar por baixo do pórtico, marcado pelo brasão do bispo D. Rodrigo Teles e pela inscrição na parede "Jerusalem Sancta restaurada e reedificada no anno de 1723" - o que pode fazer crer que uma Via-Sacra anterior já aí existisse, algo que é ainda tema de debate historiográfico.

No primeiro pátio surgem-nos duas capelas quadradas - as formas vão depois evoluindo para hexagonais e octogonais, conforme a subida e a era da construção -, representando A Última Ceia e a Agonia de Jesus. São as primeiras representações dos sucessivos episódios da Paixão, em figurações policromadas em barro, sobre fundos também ilustrados. Uma estética de um realismo desconcertantemente naïf, que Ramalho Ortigão, por exemplo, classificou como "indubitavelmente abominável", mas que cativou admiração junto dos visitantes mais devotos, e não só. Actualmente, as capelas apresentam um deplorável estado de degradação, e, na visita recente que fez ao lugar, a Fugas testemunhou o lamento de visitantes perante a destruição desse património que moldou o seu imaginário religioso. "Olha, até parece que cortaram os dedos ao Judas, coitado. É uma pena ver isto assim, e ainda dizem que é património mundial", comentava uma mulher para a sua amiga, certamente confundindo Braga com a cidade vizinha de Guimarães.

Refira-se que a Confraria do Bem Jesus iniciou, entretanto, com apoio mecenático, o restauro das diferentes estações da Paixão, trabalho que é já visível nas capelas mais próximas do templo e relativas às estações do Levantamento e do Descimento.

Escadório em forma de cálice

Voltemos ao caminho: a primeira parte do percurso da Paixão do Bom Jesus segue em aprazível ziguezague sob um bosque frondoso até ao pátio onde se encontram as sétima e oitava capelas, dedicadas a Pilatos e à subida de Jesus para o Calvário. Deste lugar, desfruta-se da mais bela perspectiva sobre o conjunto patrimonial, e que corresponde ao "bilhete-postal" mais popularizado do sítio: o escadório de recorte barroco, em sucessivos lanços simétricos, pontuados por fontes e estátuas, e com as demais capelas, até perfazer as 14 estações mais comuns da Paixão. No cimo, a igreja inaugurada há dois séculos, com a sua fachada que mais parece uma tela de pintura, completa este quadro patrimonial, que unifica a arquitectura com a escultura, a pintura e a paisagem, ao melhor estilo barroco.

O historiador José Carlos Peixoto, membro da Confraria do Bom Jesus - que, com o presidente da instituição, João Varanda, guiou a visita da Fugas -, chama a atenção para a forma de um cálice desenhada pelas fontes instaladas ao centro do escadório. E vê neste desenho - é a tese que defende no trabalho de investigação que dedicou ao Bom Jesus, e que está prestes a publicar - um gesto deliberado do arquitecto Carlos Amarante a evocar outra versão da lenda que está na origem deste sacro-monte, que aponta para o aparecimento de um cálice sagrado neste lugar do Monte de Espinho. µ

± Mais evidentes, mesmo para olhares menos informados, são as alusões das secções do escadório aos Cinco Sentidos e às Virtudes, com fontes e esculturas representando cada um destes temas, da Visão ao Tacto, da Docilidade à Caridade... É "uma longa série de esculturas de personagens bíblicos num desfile de história sagrada, barroca, e uma rica glosa de símbolos com os seus enquadramentos, que tornam o Bom Jesus de Braga num excelente cortejo granítico de figuras, de modelos, de gostos e de cultura da sua época e numa versão enriquecida e esculturada das grandes procissões da Quaresma com uma encenação religiosa à moda das grandes festas do tempo", descreve o historiador Carlos Alberto Ferreira de Almeida.

Outra particularidade que transforma o Bom Jesus num caso único no país - nota José Carlos Peixoto -, é também a sua Via-Sacra prolongar-se por mais cinco capelas-estações dedicadas ao tempo da Ressurreição, num percurso que termina no Pátio dos Evangelistas, com a cena do Encontro de Emaús (estas capelas, quadradas, estão actualmente fechadas e em vias de ser restauradas).

O templo, como já referimos, é o projecto mais famoso de Carlos Amarante, o arquitecto bracarense que deixou obra notável na sua cidade (é o autor da fachada da Igreja do Pópulo e da Igreja do Hospital de São Marcos), mas também no Porto (Ponte das Barcas, Reitoria e Igreja da Trindade). Construída entre 1784 e 1811, a igreja denota o período de transição do barroco para o neoclássico. Interessante, no seu interior, é de novo a replicação, no altar-mor, de uma cena da Paixão, e ainda os seus altares laterais decorados com telas (pintadas pelo mestre Pedro Alexandrino) em vez das habituais esculturas.

Mas uma visita ao Bom Jesus só fica verdadeiramente completa com a extensão do passeio monte acima, para desfrutar da vertente, digamos, secular deste sítio, que, desde meados do século XIX, se afirmou também como uma estância de vilegiatura. Tendo muita água, mas não sendo uma estância termal, o Bom Jesus foi sendo também procurado pelos seus ares considerados saudáveis e curativos. Membros da família real (desde D. João VI, cujas armas estão representadas na fachada da igreja, até D. Manuel II) e da aristocracia nortenha, ao lado de figuras como Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão (que escreveram sobre o lugar), foram frequentadores do sítio, que, em simultâneo com o património arquitectónico e religioso, se afirmou pelo seu lago, bosque e complexo de grutas, a primeira das quais foi desenhada pelo arquitecto Ernesto Korrodi, no início do século XX.

A vertente mais turística está actualmente a ser também valorizada pela Confraria do Bom Jesus, que, desde há dois anos, aí vem executando obras de reabilitação também do espaço envolvente e dos edifícios civis (como os hotéis - ver caixa), com o melhoramento do piso, a criação de estacionamento e a reflorestação do parque de 50 hectares "com a plantação maciça de carvalhos e uma grande preocupação com o equilíbrio ambiental", nota João Varanda.



Última actualização a 04-11-2011
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