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Os revestimentos cerâmicos de fachadas constituem uma das imagens de marca das Caldas. Os azulejos, na maior parte dos casos originários das fábricas locais, funcionam mesmo como um dos traços mais distintivos do seu novo mapa arquitectónico, que começou a ganhar corpo a partir de meados do século XIX, quando a cidade se impôs como estação balnear na moda.


Há um projecto de classificação e recuperação destas "casas de loiça", que está longe de ser implementado. Não havendo uma estratégia concertada, algumas fachadas foram já reabilitadas pelos donos das casas, mas outras inclusive de edifícios públicos estão degradadas se não mesmo devastadas. Isto para já não falar dos prédios de óbvio interesse patrimonial demolidos, logo a começar pela casa em que viveu Rafael Bordalo Pinheiro.

O que subsiste justifica mesmo assim um passeio demorado, até porque um itinerário pelas fachadas de azulejos pode constituir uma excelente introdução à cidade singularizada por um notável conjunto de edifícios românticos e arte nova. O visitante poderá solicitar uma visita guiada ao Museu de Cerâmica, mas também traçar o seu próprio itinerário recorrendo a um mapa da cidade e documentação complementar disponível na Livraria 107, na rua das Montras, que é especializada na temática caldense. Os pontos mais prováveis de partida e chegada serão a estação ferroviária e os museus, situando-se quase todas as fachadas de interesse entre esses dois extremos.

Entre os revestimentos cerâmicos de fachada mais distintivos encontram-se, previsivelmente, os rubricados por Rafael Bordalo Pinheiro. Excelentes exemplos da sua fase arte nova encontram-se nos frisos de azulejos relevados de parra de videira (ou folhas de plátano?) que decoram a Padaria Teixeira e Irmãs, no nº34 da rua das Montras (que também ostenta bustos de Bordalo e Lapissy); nos azulejos do padrão gafanhoto nas floreiras do palacete Visconde de Sacavem e nos azulejos do padrão rãs e nenúfares da Fábrica de Faianças. Outras criações de Bordalo dignas de nota são os ninhos e os azulejos do padrão Quinta da Bacalhoa, no nº48 da praça 5 de Outubro, os azulejos do padrão estrela nos nº57 (museu do ciclismo) e 41/47/49 (Pastelaria Machado) da Rua de Camões ou ainda do padrão renascença na fachada da estação de combóios. Estão, no entanto, muito degradados, ao contrário dos painéis de azulejos bicromáticos na mesma gare produzidos pela Fábrica Aleluia, que também merecem ser vistos, até porque integram uma retratação de Bordalo modelando.

Muitas outras fachadas de revestimento cerâmico são dignas de interesse, desde as de azulejos de estampilha que foram moda na segunda metade do século XIX (pastelaria Bocage e Análises Dr Artur Maldonado Freitas na Praça da República) às de azulejos modernos saídos da fábrica Secla nos anos 60 e 70 (Tália, rua Almirante Cândido dos Reis, nº33, Óptica Ramiro, rua José Malhoa, nº13). Depois há painéis de azulejos (como o de Hansi Stäel representando a família a entrada de uma vivenda na rua Dr. Augusto Saudade e Silva, nº2) e tabuletas de azulejos (na Praça da República e com assinatura de Bordalo).

Imperdíveis são ainda as esculturas que ornamentam o jardim e a fonte da fábrica de faianças artística Bordalo Pinheiro, conjunto que integra Romeu e Julieta representados por um casal de rãs, uma abelha gigante, tartarugas e rãs em tamanho natural. Algumas destas peças foram transferidas do parque Carlos I, onde infelizmente muitas outras foram roubadas ou destruídas.

Luís Maio (PÚBLICO)