Guialazer

Eu vou (1 Pessoas vão a este evento)

Mal estudada e pouco valorizada, a cerâmica das Caldas é uma prodigiosa arca de surpresas. Há fábricas, museus, lojas, fachadas e mesmo tabuletas, todo um mundo de loiça à espera de ser descoberto. Um património cerâmico que, assegura um excelente guião para visitar a cidade fundada pela rainha D. Leonor.


Um das Caldas. É nisto que a maior parte pensa quando se menciona a cerâmica local. A fama dessa "louça ofensiva", por ironia, remonta ao rei D. Luís, que a usava para presentear os amigos. Nos últimos tempos, no entanto, as peças fálicas perderam popularidade e já só restam dois ceramistas que as fabricam. Artesanato grosseiro ou arte provocatória, a verdade é que as "malandrices" são uma espécie de louça em vias de extinção.

Tão mau ou pior é reduzir a cerâmica das Caldas à dessas formas fálicas. Estamos a falar de uma actividade documentada desde 1488, quando se estabeleceu o povoado em torno do hospital termal mandado construir por D. Leonor. Uma actividade que conhece um pronunciado salto qualitativo nos últimos dois séculos, projectando-a muito para além da louça utilitária indistinta. É, porventura, um dos sectores mais criativos da arte portuguesa recente que ainda não foi devidamente estudada, nem tão-pouco é valorizada como atracção turística.

Foi Maria dos Cacos, barrista e feirante, que, a partir da década de 20 do século XIX, adopta os primeiros modelos de formas antropomórfi cas e pendor humorístico. Vem depois Manuel Mafra, que, numa primeira fase, assume a herança daquela oleira e ganha os favores de D. Fernando. Na sua corte, trava conhecimento com a moda revivalista francesa do naturalismo de Lapissy (1510-1590), que extrapola para as suas criações já de considerável apuro estilístico.

Zé povinho

O humor de Maria dos Cacos e o naturalismo de Manuel Mafra foram recriados por Rafael Bordalo Pinheiro, que protagoniza a entrada defi nitiva da cerâmica local na fase artística.Desiludido com a carreira jornalística, Bordalo assume em 1884 a direcção artística da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, que passa a funcionar com maquinaria moderna e formação de operários. Dado o fracasso inicial da fabricação de louça utilitária, avança para a produção de peças decorativas onde alia o arrojo técnico à sua profusa imaginação. Bordalo começa por assimilar o ruralismo local e recuperar os motivos ornamentais renascentistas e barrocos, para depois aderir à arte nova. Paralelamente recorre à autocitação do desenho humorístico que, para além do célebre Zé Povinho, integra toda uma galeria de personagens pitorescas da época.

A criatividade transbordante de Rafael torna-se mais disciplinada, austera e estilizada com o filho Manuel Gustavo e o seu rival Costa Motta Sobrinho, nomes que sobressaem na cerâmica das Caldas das primeiras décadas do século XX. Mas é a fábrica Secla, nomeadamente através da criação de um estúdio de criação cerâmica, activo entre os anos 50 e 70, que marca a ruptura com a tradição, aliando experimentalismo tecnológico, novas máquinas e estéticas vanguardistas. Fundado pela húngara Hansi Staël, por este laboratório passam artistas como Júlio Pomar, Alice Jorge, José Aurélio, António Quadros e Luís Ferreira da Silva, contribuindo decidamente para impor a cerâmica de autor, mas também para antecipar a entrada na idade do design.

Hoje o papel de formação na área da cerâmica cabe à ESTGAD (Escola Superior de Tecnologia, Gestão, Arte e Design das Caldas). Fábricas como a de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro e a Secla mantêm-se em actividade com uma produção sobretudo virada para a exportação (46% da produção atual da Fábrica de Faianças vai para os Estados Unidos, e apenas 5% são escoados no mercado interno).

Luís Maio (Público)