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Monte Selvagem

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29.10.05 Por Carla B. Ribeiro

"Entre em harmonia com a natureza" é o que a tabuleta de entrada aconselha. Mais do que uma sugestão, no Monte Selvagem, um parque de lazer e reserva animal em Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, isto é uma ordem: o respeito e o carinho por todos os seres vivos é o que mais se evidencia por todo o espaço. É também uma oportunidade para passar um dia bem divertido na companhia de muita bicharada.


Olhos esbugalhados e pescoços a alta velocidade. Logo à entrada do parque encontram-se três emas, umas primas distantes das avestruzes que recebem os visitantes de forma bem coscuvilheira, mas que não deixam de ser muito cómicas - fazem lembrar um só bicho com três cabeças: andam quase sempre muito juntas e medem cada visitante de alto a baixo. As cores convidam os mais pequenos a seguirem as setas até aos parques de divertimento, onde podem mesmo montar acampamento numa das casas de árvore. Mas desde "Madagáscar", o filme da DreamWorks que pôs centenas de lémures a dançarem ao ritmo de "I like to move it", são aqueles primatas que atraem mais as crianças; estas, riem-se só de os ver. Depois há a hora da refeição. É que ao contrário da maioria, que tem comida à disposição durante todo o dia, os lémures são alimentados à mão pela tratadora que lhes leva fruta descascada e já cortada em pequenos pedaços e que convida os visitantes a ajudá-la.

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O trilho pedestre continua com uma visita aos macacos do Japão, que se mostram verdadeiramente desinteressados do movimento em redor - apesar de não deixarem de se exibir -, um olhar às iguanas ou uma incursão pelos crocodilos. Os répteis gigantes dispõem de um lago por cima do qual passa uma ponte de onde se podem observar os lentos (e calculados) movimentos. Contudo, nestes dias mais frios, o que eles gostam mesmo é de estar dentro da sua cabana ao calor de lâmpadas de infravermelhos. No centro do percurso pedestre, uma surpresa: a "quintinha" que faz lembrar a quinta da Vovó Donalda (só lá falta mesmo o Gansolino a dormir debaixo de uma árvore). Há patos, galinhas, cabras, ovelhas, porcos alentejanos, gansos, entre outros. O portão está destrancado e o convite é ajudar a tratar do espaço e dos animais que lá vivem. À entrada, a troco de uma moeda, conquista-se uma mão-cheia de sementes que a bicharada agradece.

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Outras atracções na visita pedestre são os cangurus e as lamas, principalmente a "Académica", uma cria nascida no parque; um lago com patos, outro com tartarugas e gaiolas com aves exóticas, como é o caso de uma belíssima arara azul e amarela que tem de "aturar" as incursões dos pardais e de outras pequenas aves aos seus comedouros. Pelo caminho é sempre possível cruzarmo-nos com um pavão que não hesita em mostrar a exuberância da sua cauda pintada com cores vibrantes ou com uma cabrinha que aproveitando uma distracção conseguiu fugir da "quintinha". Um momento a não perder é o espectáculo com as aves de rapina que mostram os seus dotes de voo quando existem condições para o praticarem. Em dias de chuva, por exemplo, a organização mantém as aves protegidas, até porque sob esse tipo de condições meteorológicas elas recusam-se a levantar voo. Mas quando o sol sorri é possível ver um falcão a caçar ou o bufo-real a mostrar toda a sua majestade. Contudo, o barulho dos tractores que se preparam para a visita pelo Monte acaba por deixar a ave inibida e até assustada. Assim, nega-se a uma exibição, sem porém deixar de continuar a marcar a sua presença pelo parque ao longo do dia, apoiando-se no braço da tratadora. Depois de muito andar, pode-se sempre relaxar um pouco no bar, que se encontra aberto todo o ano e que serve refeições ligeiras.

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Um sonho de universidade
A ideia do Monte Selvagem surgiu nos corredores da faculdade. Ana Paula e Diogo conheceram-se quando estudavam agronomia e o projecto do Monte Selvagem acabou por nascer de uma brincadeira - Ana Paula dispunha de alguns conhecimentos, uma vez que o pai, "um autodidacta", trabalhava com uma equipa de biólogos, e por isso ela acabou por crescer dentro do Jardim Zoológico de Lisboa, onde desenvolveu uma relação muito próxima com os animais; Diogo tinha os meios: o pai é proprietário de vários hectares de terra no Alto Alentejo. "Nessa altura ainda não namorávamos sequer, mas já brincávamos: "um dia havemos de fazer uma coisa assim"", recorda Ana Paula, entre risos. Acabaram por namorar, casar e seguir um caminho diferente, até que há três anos decidiram avançar com o antigo sonho; falaram com o pai de Diogo que lhes cedeu a propriedade.

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Aberto desde o ano passado, o Monte Selvagem estende-se por 20 hectares que parecem ter tido sempre este aspecto limpo e arejado. Mas, a verdade é que o trabalho de limpeza e a montagem de infra-estruturas (tanto a rede eléctrica como a de abastecimento de água são subterrâneas, o que evita os desagradáveis cabos de electricidade a cortarem a paisagem) foi o que demorou mais tempo e o que ficou mais dispendioso. Com um investimento total de quase um milhão de euros, o Monte Selvagem é um parque zoológico sem grandes pretensões a curto prazo: crescer passo a passo, sem pôr em causa as boas condições de vida dos animais e a segurança da flora - o sobreiro é uma das fontes de rendimento do negócio e por esse motivo está posta de lado a hipótese de adoptarem animais que os possam danificar. Além disso, uma das apostas do parque é a educação ambiental e por isso mesmo a organização sabe que tem que dar o exemplo. No Monte Selvagem "não se usam quaisquer tipo de químicos", "o lixo é separado" e foi construída uma mini ETAR para o tratamento de resíduos sólidos. Hoje, o rol de animais existentes é reduzido, mas talvez por isso se encontrem todos tão bem tratados. E é esse mesmo o objectivo do projecto: poder exibir bichos a deambularem livremente (alguns encontram-se em espaços mais limitados, como é o caso dos crocodilos do Nilo, do camelo, o "Pascoal", dos lémures-de-cauda-anelada ou dos macacos-do-Japão) e em perfeitas condições sanitárias que se podem visitar num passeio de tractor que arrasta atrás de si uma espécie de autocarro.

 


Olhó Tractor!
A viagem pelo Monte Selvagem arranca com as indecorosas avestruzes que procuram conhecer bem (e de perto) os visitantes. Quando o tractor começa a avançar elas ainda correm ao lado da máquina, mas acabam por desistir. Logo à saída vê-se um casal de burros, o "Monte" e a "Selvagem", e as zebras confinadas a um espaço vedado. Habitualmente andam em liberdade, mas o nascimento de uma pequena cria de iaque, ainda por "baptizar", obrigou a clausura da espécie, que, não sendo perigosa, é muito bruta e poderia causar danos ao mais novo habitante do parque com a sua curiosidade. A cria está mais à frente, acompanhada pelo grupo e agarrada à teta da mãe que lhe vai enxotando as moscas à volta. De vez em quando avistam-se pequenos nichos de mata densa: não se trata de um pedaço de terra negligenciado, mas um refúgio para que alguns animais possam ver nascer as suas crias. Aí sentem-se seguras e longe dos olhares curiosos.

 

 

 

Um grupo de chitais - um animal muito parecido com o veado e muitas vezes confundido com ele - afasta-se do caminho do comboio e prepara-se para fugir caso seja necessário. O mesmo não acontece com um elande, que, descaradamente, se coloca em frente ao tractor, caminhando calmamente e obrigando ao abrandamento da marcha. As barragens que aliviam a secura da paisagem - algumas que já existiam no terreno, outras que foram criadas com as infra-estruturas do monte - estão livres de servirem para o despejo de lixos e abrigam algumas espécies animais que já faziam delas o seu "habitat", como é o caso dos peixes e de algumas tartarugas, e outras levadas entretanto para o Monte Selvagem, como é o caso dos cisnes brancos que espalham graciosidade - uma qualidade que no Monte Selvagem até o camelo parece ter conquistado.

Como ir
O Monte Selvagem situa-se em Ciborro, a cerca de seis quilómetros de Lavre, freguesia do concelho de Montemor-o-Novo. A partir de Lisboa, o trajecto mais fácil é apanhar a A2 e depois a A6. Sair em direcção a Vendas Novas (depois da portagem à esquerda) e quando se entra na localidade, seguir as indicações de Lavre (à direita, a seguir à rotunda). A partir de Lavre é seguir o caminho que leva a Ciborro, mas pode-se contar com a ajuda de placas com indicações do Monte.

 



Última actualização a 13-03-2013
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