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Por Rita Pimenta

Todos os dias, um rapaz observava um homem velho que observava o mar. Fonchito não consegue escapar à curiosidade que aquele homem nele desperta. Certa manhã, foi falar com ele.


"Armando-se de força, murmurou: 'Bom dia'." E logo se percebeu que muitos seriam os momentos de encontro entre ambos. "O outro virou-se para o observar. Fonchito reparou que, na cara cheia de rugas do ancião, cintilavam uns olhos vivos e ainda jovens. Uns olhos tão intensos que pareciam ter visto todas as maravilhas que há no mundo." Era mesmo assim.

"Olá, rapazinho, cumprimentou-o o velho senhor com uma voz tão suave que se diria o trinado de um passarinho." Explicou-lhe que estava ali à espera que o barco das crianças aparecesse, "apontando para o mar com uma mão comprida e magrinha". Mas Fonchito só via "uma pequena traineira de pescadores, a balouçar ao longe". Diz-lhe o novo amigo: "Nem todas as pessoas merecem vê-lo."

Mario Vargas Llosa, peruano, nobel da Literatura em 2010, criou esta personagem enigmática para falar do século XII na Europa, das Cruzadas, da crueldade e da esperança. Zuzanna Celej, polaca, confere um ambiente enigmático, sombrio, mas também terno à narrativa. 

O barco da crianças, a que o ancião desejava voltar, queria "levar a cabo a façanha de salvar a cidade onde Cristo morreu apenas com os seus cantos, súplicas e orações". Fonchito, enquanto esperava o autocarro, foi conhecendo a história deste velho... da sua idade. Uma manhã, ele não apareceu. O pai e a madrasta do menino perguntam-se "desde esse dia por que razão ele passava tantas horas na varanda a perscrutar o mar". Talvez quisesse zarpar.

O Barco das Crianças
Texto Mario Vargas Llosa
Tradução Vasco Gato
Ilustração Zuzanna Celej
Edição Editorial Presença
112 págs., 15,90€ 

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