Guialazer

Por Rita Pimenta

Este texto de Agustina Bessa-Luís, com ilustrações da sua filha, Mónica Baldaque, foi escrito em 1983 e já teve várias edições. A que aqui se divulga data de 2010. É uma “quase autobiografia” da escritora, que fala pela voz de Lourença, uma criança que “o que mais gostava de fazer era comer maçãs e deitar-se para dormir. Mas não dormia


Fechava os olhos e acontecia-lhe então uma aventura bonita, e conhecia gente maravilhosa”. Chamavam-lhe “Dentes de Rato” porque “os dentes dela eram pequenos e finos, e pela mania que ela tinha de morder a fruta que estava na fruteira e deixar lá os dentes marcados”. Não tinha o comportamento esperado para uma
menina.

Logo no arranque se reconhece a rebeldia de Agustina. “Lourença tinha três irmãos. Todos aprendiam a fazer habilidades como cãezinhos, e tocavam guitarra ou dançavam em pontas dos pés. Ela não. Era até um bocado infeliz para aprender, e admirava-se de que lhe quisessem ensinar tantas coisas aborrecidas e que ela tinha de esquecer o mais depressa possível.”

Neste conto encontramos muitos dos temas ancorados na infância e que explorou nas suas obras para adultos: as constantes mudanças de casa, por causa do trabalho do pai (“uma pessoa um bocado doutro tempo e que falava de coisas completamente desinteressantes”), a ligação à natureza e o seu amor pelo Norte. Também os costumes do século XX e o papel das mulheres é retratado com o seu
implacável sentido crítico.

Sobre a pieguice da mãe, diria: “Uma perda de tempo, porque as coisas não se arranjam com o choro.” Sobre a irmã, Marta: “Era capaz de chorar durante duas horas porque o pai se rira do seu penteado ou duma palavra difícil que ela dizia. (...) Lourença olhava para ela e achava-a uma senhora. No entender dela,
uma senhora era a coisa mais aborrecida que há.”

As ilustrações expressam bem o ambiente melancólico em que a protagonista se movimenta. O livro termina com o seu nono aniversário.

O melhor presente foi a chegada de uma pomba ao peitoril da janela do seu quarto. “‘Alguém o mandou, de muito longe...’ O coração dela, oprimido e cheio de inconfessáveis tristezas, encontrou de repente consolação. Achou que o mundo inteiro esperava por ela, e os mares todos, com as suas tempestades, podiam ficar calmos porque ela assim queria que fosse.” E assim foi.

Dentes de Rato
Texto | Agustina Bessa-Luís
Ilustração | Mónica Baldaque
Revisão | Ana Salvador
Edição | Babel 
64 págs., 7,49€ 

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