Guialazer

Por Rita Pimenta

As máquinas constroem, as máquinas destroem. Joseph Kuefler personifica nesta história uma grua, um buldózer e uma escavadora.


"– Vamos içar – disse a Grua." "– Vamos empurrar – disse o Buldózer." "–Vamos escavar – disse a Escavadora." Era assim que passavam os dias, destruindo aqui e edificando ali. E a cidade cresceu, com "grandes prédios para trabalhar", "estradas para circular" e "pontes para atravessar".

Numa pausa de trabalho, a escavadora descobriu algo belo no meio do entulho: uma flor azul, pequenina. "– Olá – disse ela." Passou a visitá-la diariamente. Regava-a, protegia-a do vento e à noite cantava-lhe uma canção de embalar. 

Não tardou a que também o lugar da flor tivesse de ser ocupado por mais um edifício. Impotente, a grua viu o buldózer, implacável, arrancá-la pelo caule. Já não voltou ao trabalho. Recolheu as sementes e foi enterrá-las na terra quente distante da cidade. Outras haveriam de nascer e crescer.

Para lá do óbvio alerta ecológico da narrativa, há aqui um exercício de valorização da empatia e da coragem de proteger os seres mais frágeis.

Nas imagens, é-se imediatamente conquistado pelo ar amável que o autor consegue dar a estes engenhos ruidosos e até assustadores pela imponência e capacidade de destruição. Logo na capa se vislumbra a ligação terna entre "a bela e o monstro".

Lá dentro, o contraste das cores das máquinas com o negro e cinzento da paisagem construída prende a atenção dos leitores. E é impressionante como se consegue dar um rosto e diferentes emoções a uma escavadora…

Joseph Kuefler vive no Minnesota (EUA) e também faz trabalhos de design e marketing. É autor de uma obra que já aqui divulgámos, "No Fundo do Lago", editada igualmente pela Bizâncio, e que foi a sua estreia nos livros ilustrados (2015).

O autor mostra-se sensível a questões de ambiente e gosta de nos alertar para a indiferença perante os pormenores fantásticos que andam por aí. Como se quisesse impedir a nossa cegueira.

No final, surge uma foto do ilustrador em criança montado num triciclo-tractor amarelo, que foi certamente o inspirador desta simpática escavadora-jardineira.

As flores hão-de voltar à cidade.

A Escavadora e a Flor
Texto e ilustração Joseph Kuefler
Tradução Jorge Lima 
Paginação Pedro Lopes
Edição Bizâncio 
44 págs., 11,90€ 

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