Guialazer

Por Rita Pimenta

"O senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos. Ele explicava: – Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo. Um, dois, três… segundos."


Logo no arranque fica a perceber-se que estamos na presença de uma personagem singular. Este senhor pensa muito e muito. Ainda que os seus pensamentos e atitudes revelem uma lógica indiscutível, não deixam de ser absurdos. Tolos até.

Depois de se aperceber de que, "se as pessoas altas saltassem, ele nunca as alcançaria na vertical", abandonou os saltinhos e arranjou outra solução: um banco. "Colocava-se em cima dele e ali ficava, parado, a olhar." E concluiu: "Desta maneira sou igual aos altos durante muito tempo… só que imóvel." Entre várias tentativas "ridículas" para não se sentir pequenino, decidiu por fim "ser alto na sua cabeça". Assim sendo, concentrava-se num ponto 20 centímetros acima dos outros e "conseguia mesmo ver a imagem do topo do cabelo de pessoas que eram muito mais altas que ele". Resultado: foi-se esquecendo do rosto dos amigos. Com a altura, perdeu-os.

Alguns adultos já conhecem a personagem, que surgiu inicialmente no livro "O Senhor Valéry", editado pela Caminho em 2002. As idiossincrasias chegaram às crianças em 2007 com ilustrações de Rachel Caiano. Agora, a editora mudou, mas o talento dos autores não. A escrita minimalista é bem captada por quem ilustra, não deixando de acrescentar pormenores ao não dito. Um livro que remete para Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa): "Porque eu sou do tamanho do que vejo/E não do tamanho da minha altura..." 

Os Amigos
Texto Gonçalo M. Tavares 
Ilustração Rachel Caiano 
Revisão Anabela Prates Carvalho
Edição Relógio D'Água 
72 págs., 14€ 

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