Guialazer

Por Rita Pimenta

O livro arranca assim: "É mentira que os dias nascem." E logo nos conquista.


Segue-se a explicação: "O despertador do meu pai toca, todos os dias, às cinco da manhã. Ele levanta-se e caminha descalço pelo corredor até à casa de banho. Os pés suados colamse no chão: a cada passo, parece estar a rasgar uma folha de papel. Costumo acordar com esse barulho. Ou com a minha mãe a refilar desse barulho. Mas depois volto a adormecer, até o dia estar montado."

O narrador vai-nos contando como o seu pai monta, diariamente, o mundo do alto da sua grua. É com ela que dispõe as nuvens no céu, vai buscá-las ao armazém: "Nalguns dias, são redondas ou em forma de sapo, noutras ficam como os meus desenhos feitos à pressa: rabiscos."

O pai de outro miúdo ocupa-se dos rios, dos mares e dos oceanos, "abre as torneiras" para os encher. "Tem de ficar atento para não entornar, claro." Já o tio António "é o responsável por puxar o sol pelo guindaste".

Uma visão poética do mundo e que nos fazer pensar em profissões esquecidas e desvalorizadas. O miúdo tem jeito para desenhar e gosta de Educação Visual, o pai sabe disso: "Ele já me disse: que bem que vais construir o mundo."

Um texto imaginativo e comovente de Fábio Monteiro, muito bem acompanhado pelo colorido e pela criatividade de Mariana Rio. Para quem gosta de guindastes, engenhocas e estaleiros, é uma delícia.

"A Construção do Mundo" ganhou o Prémio Literário Branquinho da Fonseca (atribuído pelo jornal "Expresso" e pela Fundação Calouste Gulbenkian) em 2017. Ainda bem.

A Construção do Mundo
Texto | Fábio Monteiro 
Ilustração | Mariana Rio
Revisão | Rita Matos
Edição | Livros Horizonte
32 págs.; 13,60€

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