Guialazer

Em tempos de comemoração do centenário do Armistício, que pôs fim à I Guerra Mundial (1914-18), talvez não seja má ideia mostrar às crianças este livro.


"A guerra rasga o dia como uma doença sussurrada e veloz." Primeira frase que se lê, depois de nos ser mostrada uma paisagem que vai sendo invadida por sombras malévolas e por aranhiços que tudo corroem. Primeiro, por dentro; depois, por fora e cada vez mais além. "A guerra toma a forma brutal de todos os medos." Frase que surge mais adiante, num texto cru e sem subterfúgios, que respeita a inteligência do leitor, mesmo que (ainda) não seja adulto. E que o alerta e comove.

"A Guerra" é uma obra assinada por pai e filho, que, na última vez que estiveram juntos editorialmente, criaram o inesquecível "Se Eu Fosse Um Livro", também da Pato Lógico.

Aqui, o ambiente é mais triste, as cores mais carregadas e a prosa menos positiva.

"A guerra nunca foi capaz de contar histórias", lê-se numa das páginas, em que uma montanha de livros está prestes a ser incendiada. Quem lançará o archote será, certamente, poderoso e ignorante. (Conhecemos alguns.)

Preto, cinzento, amarelo esbatido, branco sujo foram as cores que André Letria escolheu, apropriadamente, para retratar a guerra. O mesmo é dizer a tristeza, a dor, a morte e o desalento.

"A guerra entristece, esmaga e cala", lembra José Jorge Letria. Para concluir que, no fim, resta o silêncio.

Não é um livro esperançoso, como sempre esperamos das obras que se dirigem às crianças e aos jovens. Mas é honesto. Cabe então ao adulto mediar a leitura e fazer saber que a memória e a história podem ajudar-nos a impedir e a contrariar "os sonhos de glória que tudo incendeiam". Pela paz.

A Guerra
Texto | José Jorge Letria
Ilustração | André Letria 
Edição | Pato Lógico 
64 págs., 14,50€ 

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