Guialazer

Carlos Alberto é uma daquelas pessoas a quem assenta muito bem a frase da canção: "Porque eu só estou bem aonde não estou. Porque que eu só quero ir aonde não vou."


Diz o rapaz que nada se passa no seu bairro. Nunca. E está tão convencido disso que não consegue ver para além da sua verdade.

A matutar nessa triste circunstância, nem se apercebe de como o seu bairro é animado. Dir-se-ia até bem agitado.

Enquanto sonha com lugares onde existem "casas assombradas" ou "desfilam bandas filarmónicas", não se dá conta da perseguição a um bandido, da ocorrência de um incêndio, das crianças que saltam à corda (e caem), do gato que lhe reclama atenção, nem sequer repara no pára-quedista que desce dos céus ou no dinheiro que salta de uma carrinha de transporte de valores.

O protagonista padece da cegueira dos insatisfeitos crónicos. Por isso, há que concordar com o que se escreve no início do livro: Carlos Alberto "é uma seca".

"Nunca se Passa Nada no Meu Bairro" é uma caricatura bem conseguida das pessoas que não valorizam o que têm "à frente do nariz". E esta ideia é muito bem retratada na figura do rapaz, na sua linguagem corporal e na cor negra que veste (e de que reveste o mundo).

À medida que os acontecimentos se sucedem, a página vai-se enchendo de cores, que nós vemos mas ele não – concentrado que está no seu negrume e infelicidade. Fica-se com vontade de o abanar e até de lhe oferecer uns óculos bem grandes.

No site da Bruaá informa-se que "Ellen Raskin foi uma escritora, ilustradora e designer gráfica. Habitava em muitos mundos: no mundo dos livros, dos sonhos e na cidade de Nova Iorque, onde escreveu e ilustrou numa casa assombrada de 1820. Como designer gráfica, criou capas para mais de mil livros (...) Depois de anos a ilustrar as ideias dos outros, Ellen Raskin publica em 1966 o seu primeiro álbum ilustrado: 'Nunca se Passa Nada no Meu Bairro'. Foi o primeiro de muitos. Raskin morreria aos 56 anos, a 8 de Agosto de 1984, na cidade de Nova Iorque."

Certamente que muita coisa se passava no seu bairro. E ela via.

Nunca se Passa Nada no Meu Bairro 
Texto e ilustração | Ellen Raskin
Tradução e edição | Bruaá Editora
Revisão | Helder Guégués
36 págs., 12,50€ 

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