Guialazer

Por Rita Pimenta

Não é fácil para uma criança crescer somente rodeada de adultos. Por mais atenção que lhe seja dada, falta-lhe a experiência de ter amigos da sua idade com quem brincar, zangar-se e viver a alegria de se reconciliar.


Nada disto tem Tattoo, uma menina comilona cujo nome resulta de uma pequena tatuagem no rosto. As suas melhores amigas são as árvores, que abraça e escuta. "Elas honram a terra e a água que lhes dão vida."

Mas a menina tem um plano para atrair crianças para junto de si. E envolve um pinheirinho de Natal.

Antes de darmos a conhecer o plano, vejam como Tattoo se entretém: como é muito pequenina, "dá pela altura dos joelhos dos adultos lá de casa, passa quase sempre despercebida, logo, goza de muita liberdade de movimentos. Quando se sente aborrecida, distrai-se com o vaivém das pernas da família: estuda-lhes o trajecto da cozinha para a sala, da sala para o alpendre e do alpendre para os quartos. Como já tem muitas horas de estudo, Tattoo calcula o número de rugas da cara pelo número de pregas nos joelhos. – Nunca falha! — gaba-se ela. Ah e também consegue identificar todas as pessoas da família só pelo andar."

A pequena está sempre desejosa de se ir deitar porque há umas noites que sonha com um cavalo branco, muito vaidoso e até rabugento, mas que a vai acompanhar na aventura de desafiar os deuses.

Tattoo quer que eles a ajudem a encontrar uma história, "que não poderá ser uma história qualquer", para enfeitiçar as crianças. A história será enterrada aos pés do pinheirinho, e este "ganhará um brilho próprio, muito para além das luzes e dos ricos enfeites artificiais".

A menina acredita que as crianças, "sem perceberem muito bem porquê, farão fila para estar perto da árvore de Natal mais extraordinária que alguma vez existiu ao cimo da Terra e debaixo do Céu. E depois… 'Haverá melhor forma de fazer amigos?', cogita ela. 'Não.'"

Este é o livro de estreia da actriz Margarida Marinho no sector infanto-juvenil, que aqui revela sensibilidade, imaginação e domínio da escrita.

Como é muitas vezes comum em primeiros livros no universo infantil, a autora inspirou-se nos filhos. Informa a editora que, "quando nasceu Manuel, hoje já adulto, nasceu a ideia desta história". À filha Carlota "foi buscar vida para dar vida a Tattoo". Fez bem.

As pequenas ilustrações da lituana Lina Düdaité são discretas, mas ajudam a entrar no universo mágico da narrativa. E da Lua. A ilustradora diz que, "quando está a desenhar, não tem propriamente um plano ou objectivo. Simplesmente, faz o que tem prazer em fazer e é assim que vive".

Não vamos desvendar o final, mas fiquem sabendo que os deuses, que não gostam de ser importunados, não irão facilitar a vida a Tattoo. Mas a menina está determinada e já aprendeu a desejar com o coração. Isso nenhum deus pode contrariar.

Tattoo - De Noite, Um Cavalo Branco
Texto | Margarida Marinho
Ilustração | Lina Düdaité 
Edição | ASA Editora 
120 págs., 9,90€

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