Guialazer

Por Rita Pimenta

Contrariando todos os procedimentos oficiais, um homem insiste em ser recebido pelo rei. "Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele."


Pela pontuação logo se percebe que o autor é José Saramago, mas também pelo que denuncia e reflecte num texto que alia o sonho à luta contra convenções inusitadas e à descoberta do mais genuíno e íntimo de cada um de nós. Sempre em busca da utopia.

Afinal, que queria aquele homem, tão corajoso e determinado que desafiara as rotinas da autoridade e do poder?

Foi assim o encontro com o rei: "Que é que queres?, Por que foi que não disseste logo o que querias?, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta. Dá-me um barco, disse."

O rei ficou desconcertado e só algum tempo depois o homem conseguiu dizer-lhe que queria "ir à procura da ilha desconhecida".

Não foi fácil convencê-lo a aceder ao pedido nem a fazer valer a sua certeza de que haveria sempre ilhas por descobrir.

A mulher da limpeza, com quem o homem falara à porta do rei, acabará por viajar com ele. Gostamos deste diálogo: "Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."

Uma história sobre descoberta, perseverança e espírito colectivo. Já a vimos encenada e dramatizada por diferentes companhias, mas não nos cansamos do texto. E da ideia. "Sempre tive a ideia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, outro que é o barco, e o céu, estás a esquecer-te do céu. Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu."

As ilustrações de Fatinha Ramos oferecem à narrativa variações de escala e um colorido que atraem e fixam o olhar do pequeno leitor. Do grande também.

O Conto da Ilha Desconhecida
Texto | 
José Saramago
Ilustração | Fatinha Ramos
Edição | Porto Editora 
64 págs., 13,30€

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