Guialazer

Por Rita Pimenta

Escrever nos troncos das árvores não é muito correcto, pois não? Mas nesta história teve um resultado poético e bonito.


Ora escutem: "Diz-se que a primeira Contadeira é filha do Vento e da Lua" e que foi levada para o alto de uma grande árvore. A meio do livro, ficamos a saber que, "sozinha, a pequena Contadeira começou a viver num mundo de fantasia cheio de histórias e para que as não esquecesse começou a escrevê-las no tronco da sua árvore".

E não é que a árvore deixou de dar frutos e passou a dar letras? (Se pensarmos bem, é também um tipo de fruto, mas que pode nascer em qualquer estação.) "Primeiro, eram pequeninas. Depois, tornaram-se maiúsculas. No final, acabariam por se transformar em livros." 

A Contadeira, que tinha fome, desatou a comer todos os livros que encontrava. "E de tantos comer… um dia dividiu-se em duas e depois em três e depois em quatro. E agora ninguém sabe quem é a primeira das contadeiras de histórias." Mas não faz mal. Quantas mais houver, melhor. Certo é que, em noites de Lua cheia, quando as crianças não têm sono, se escutarem com atenção, vão conseguir ouvir o som das letras "que as contadeiras tecem em histórias de embalar".

Um livro-homenagem a quem conta histórias e que a autora apresenta em muitas bibliotecas, livrarias e encontros, sejam literários ou ligados às artes.

Como ilustradora e artesã, a alentejana Sofia Paulino privilegia a reutilização de materiais e cria objectos poéticos, como os que integram este belo livro. As cores da terra e da noite, por onde se passeiam as brancas e elegantes contadeiras, dão ao livro um ambiente sereno e quente.

Aqui e ali, há pequenos apontamentos de vermelho – no coração da primeira contadeira e no novelo de que serão tecidas as histórias. Também se encontram letras (das sopas de letras comestíveis) a amarelo, cor que se repete em pequenas flores no final. Tudo sempre em tons suaves. Cartão, papel de jornal, rendas, fios, panos, arame são materiais usados com imaginação e arte. Gostamos da ideia de partitura, já perto do final, com "o som das letras".

As ilustrações originais do livro estão expostas até dia 14 de Agosto em Óbidos, na Casa Romântica Galeria de Arte.

Há quanto tempo não conta (ou não escuta) uma história de embalar? 

As Contadeiras de Histórias
Texto e ilustração | Sofia Paulino
Edição | Simon’s Books
32 págs., 14€

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