Guialazer

Por Sílvia Pereira

Sucedem-se as grandes concentrações de protesto. Mas, a 13 de Outubro, há uma diferente: dá a arte ao manifesto.


Por (mais) uma vez, olhemos a fábula da cigarra e da formiga com outros olhos. Imaginemos que somos guitarristas-cantores e a questão pode passar a ser "Como ficam os artistas nesta história?". Se é verdade que alguns são bafejados por golpes de sorte, uma imensa maioria tem de saber mexer-se — e bem… — para descobrir onde ir buscar mantimentos para o Inverno… ou para o dia seguinte. Como formigas. Concedamos também mérito à cigarra por servir de megafone às preocupações dos carreiros presos nas suas rotinas de vai-e-vem. E pelas muitas vezes que despertou nesses carreiros uma nova consciência e as movimentou noutro sentido, o da mudança.
A 13 de Outubro, os artistas mexem-se e querem fazer mexer. Juntam-se ao movimento Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas e pontificam um evento cultural com epicentro em Lisboa (Praça de Espanha) e réplicas pelo país (Aveiro, Coimbra, Faro, Porto, Setúbal, etc.). 
A cultura contra-a-troika e Não queremos ouvir as vossas cantigas são slogans de uma campanha que se associa também ao Global Noise, dia de protesto internacional anti-austeridade.
Entre as várias artes, olhemos mais de perto a música que comanda a manifestação cultural marcada para este sábado — ou Woodstroika, como alguém já lhe chamou. As mensagens destas canções, disfarçadas ou descaradas, são apropriadas ao/pelo momento.
 
Coro Acordai 
Nasceu de forma mais ou menos espontânea quando um grupo de músicos e cantores decidiu entoar a canção Acordai, de Fernando Lopes-Graça e José Gomes Ferreira, na vigília em frente ao palácio de Belém, a 21 de Setembro. A cantora lírica Ana Maria Pinto é um dos rostos mais visíveis do movimento coral.
  
Deolinda
"Agora sim, damos a volta a isto…", cantava Ana Bacalhau em Movimento perpétuo associativo, longe de imaginar a projecção do grupo e, muito menos, a dimensão que outra canção ganharia anos mais tarde: os versos de Parva que sou ecoaram nos coliseus e revelaram o desalento da Geração à rasca que, em Março de 2011, se pôs em marcha pelo país. 
Depois de 13/10, próximo concerto: Centro de Arte de Ovar - 19/10
 
Camané e Dead Combo
Uma das muitas provas de versatilidade de Camané, fadista, está no encontro recorrente com os Dead Combo para palmilhar paisagens western-mouriscas. Recentemente, pediram emprestada a Inquietação de José Mário Branco e gravaram, juntos, as palavras do autor de FMI: "Há sempre qualquer coisa que está para acontecer...". 

A Naifa
Recuemos a 2004, quando João Aguardela ainda estava entre nós, para redescobrir uma parte de Canções Subterrâneas: Queixas de um utente começa com "Pago os meus impostos, separo o lixo, já não vejo televisão há cinco meses" e segue para "Já não me lembro se o médico me disse ser esta receita a indicada para salvar o mundo ou apenas ser feliz. Seja como for, não estou a ver resultado nenhum". 

Chullage
Para este dizedor, a capacidade de intervenção é determinante. O autor de Rapresálias e Rapensar lançou este ano Rapressão, colecção carregada de denúncia, desabafos e desafios, como manda a boa cartilha hip-hop. Vale a pena ouvir Eles comem tudo. Entre excertos do original de Zeca Afonso, vai debitando "a finança enche a pança com o aval da liderança, despedimentos em vez de aumentos são os rumos da mudança".

Homens da Luta
"Lá estaremos, pá!" Neto e Falâncio não costumam falhar uma. Do alto das suas caricaturas para levar a sério – até a Alemanha teve de os ouvir no festival Eurovisão da Canção –, de megafone e guitarra em punho e rodeados de músicos/trabalhadores, soltam a saudável provocação de temas com A luta é alegria ou E o povo, pá?, passando pela citação a José Mário Branco: Eu vi este povo a lutar para a sua exploração acabar… 
Próximo concerto? Numa luta perto de si.

Mas há mais artistas a juntarem-se ao protesto: 
Entre os músicos confirmados, estão Carlos Mendes, Chaby, Ana Lains, Filipa Pais, Ladrões do Tempo, Toca Rufar, Couple Coffee, Orquestra Sinfónica, Manuel João Vieira, Bandex, Diabo a Sete, Zeca Medeiros, Francisco Naia, Rogério Charraz, Rádio Macau, Jazzafari Unit, Vitorino, DaPunkSportif, Janita Salomé, Quarteto Lopes-Graça, Peste e Sida, Maria Viana, Samuel, Francisco Fanhais, Diabo na Cruz, LBC, Hezbollah, Brigada Vitor Jara, Jakilson, etc.