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Museu do Oriente

Por Enric Vives-Rubio

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09.04.08

O Museu do Oriente inaugurou dia 8 de Maio de 2008, está instalado num grande edifício na Doca de Alcântara desenhado pelo arquitecto João Simões nos anos 30 e agora readaptado pelo atelier de João Luís Carrilho. São sete pisos e uma área de 15.500 metros quadrados, onde convivem três espaços distintos de exposição. O museu promete uma programação vasta e variada.


O novo Museu do Oriente não vai servir para nos orientarmos na cidade de Lisboa - é na parte ocidental da cidade. Mas não é preciso tomar nota do endereço, porque em breve vai bastar apanhar o autocarro nº 12 - que terá mesmo ter escrito "Museu do Oriente". É aí que passa a terminar o percurso, a partir de 8 de Maio, o dia para que está marcada a grande inauguração deste novo equipamento cultural lisboeta.

Também não há que enganar, uma vez que o Museu do Oriente é um edifício branco com quase 100 metros de comprimento na Doca de Alcântara, do outro lado da linha férrea. É um bonito edifício modernista, desenhado pelo arquitecto João Simões nos anos 1930 para conservar bacalhau seco e armazenar frutas frescas. Quase 70 anos depois, o atelier do arquitecto João Luís Carrilho da Graça readaptou-o para instalar o museu. São sete pisos e uma área de 15.500 metros quadrados.

"É um bocado assustador. Vamos ter que gerir e ingerir este espaço ao longo dos anos", disse Carlos Monjardino, presidente da Fundação Oriente, que tutela a instituição, na apresentação aos jornalistas do que vão ser os dois primeiros meses de programação do Museu do Oriente, uma conversa feita já no restaurante do museu que vai abrir daqui a um mês.

O custo do Museu do Oriente - compra do edifício, obras e mobiliário - é de 25 a 30 milhões de euros e Monjardino considerou a abertura do museu "um passo muito grande na vida da fundação". Anualmente, o museu irá dispor de um orçamento que poderá variar entre três e quatro milhões de euros.

A visita guiada serviu também para vários membros da nova equipa - cerca de 40 funcionários - dizerem que o museu é, na verdade, um centro cultural, ou quase. "O que chamamos Museu do Oriente é, de facto, um centro cultural sem ser chamado centro cultural", explica João Calvão, director dos serviços culturais. Além de três espaços diferentes de exposição (dois com 1500 metros quadrados, outro com 1000), tem um auditório com 360 lugares (mais uma dezena do que o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém), um centro de reuniões para encontros, seminários e reuniões científicas, um centro de documentação com 12 lugares de leitura, um serviço educativo e um restaurante com uma grande janela virada ao Tejo, onde haverá comida de todos os países da Ásia. "Um auditório com estes lugares, com programação específica, vai muito para além do museu."

Muita world music

Se a fundação programava até agora dois ou três espectáculos por ano, o número vai passar para 40 nos próximos oito meses (100 se contarmos com o cinema). O Museu do Oriente vai ter espectáculos de música, teatro, dança, ciclos de cinema, workshops, conferências e debates. Para o espectáculo inaugural, dias 9, 10, 11 e 12 de Maio, o museu encomendou uma peça ao compositor e pianista Mário Laginha, que estará em palco com os músicos Ngyen Lê (Vietname), Prabou Edhouard (Índia) e Joji Hirota (Japão).

Vai haver muita música no auditório, "muita world music, se quisermos pôr um rótulo", explicou João Amorim, da direcção internacional da fundação, que ontem apresentou as linhas gerais da programação do auditório e do centro de reuniões. "Mas não vai ser só música étnica, vai haver música experimental, contemporânea, jazz e música clássica. Vai ser uma programação centrada na Ásia, mas não só - 60 por cento dos artistas serão asiáticos." O palco é adequado "a espectáculos um pouco mais intimistas" e o museu investiu muito na qualidade técnica do auditório.

A programação está organizada em ciclos temáticos, cruzando o cinema, por exemplo, com as exposições: é o caso das máscaras, com os temas da falsa identidade ou do duplo no ecrã.

Monjardino apresentou o Museu do Oriente como um espaço de "confraternização", um espaço que vai permitir aos portugueses que não podem ir ao Oriente conhecer as culturas asiáticas. O museu foi assumido pela fundação como um desígnio, desde que esta foi criada há 20 anos, um espaço capaz de testemunhar as relações históricas entre Portugal e a Ásia. Por isso, uma das exposições permanentes mostra cronologicamente a presença portuguesa no Oriente, explicou a directora do museu, Natália Correia Guedes, que foi subsecretária de Estado da Cultura e dirigiu museus como os Coches e o Traje. Mistura antiguidades adquiridas, ao longo dos anos, por Carlos Monjardino em antiquários, leilões e a coleccionadores privados, com peças emprestadas por outras instituições museológicas, como o Museu Machado de Castro, em Coimbra, o caso das importantes colecções do poeta Camilo Pessanha (arte chinesa) e do escritor e político Manuel Teixeira Gomes (artes decorativas da China e do Japão), mas também o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Visita às reservas

A exposição começa cronologicamente no século XVI - vai lá estar uma primeira edição d"Os Lusíadas, de Luís de Camões, "E entre gente remota edificaram/ Novo reino que tanto sublimaram". Mas a maior parte das peças são do século XVIII, como um pagode chinês em osso e marfim, que ontem ainda estava a ser restaurado nas reservas do museu, um espaço de 2500 metros quadrados que ocupa quase todo o piso 3. "Foi oferecido pelo Real Senado de Macau à rainha D. Maria I quando a corte chegou ao Brasil. O ouvidor-mor de Macau foi de propósito ao Brasil prestar vassalagem", diz a directora.

Nas reservas do museu, dezenas de máscaras estão prontas a subir para as grandes vitrinas que desenham as salas de exposição. Há móveis com embutidos em madrepérola a ser fotografados. As peças vão começar a ser dispostos na quinta-feira e esperam-se algumas noitadas. Muitas estão ainda dentro de caixas, onde se lêem etiquetas coladas a dizer "China, trajes minorias étnicas", "China, traje ópera de Pequim". São peças que vão servir para organizar a grande exposição temporária dedicada às máscaras da Ásia, a partir da colecção Kwok On, um importante acervo do museu, que junta peças da Turquia ao Japão, testemunhos das artes performativas mas também das grandes mitologias e religiões.

Com a sua dezena de monitores do serviço educativo, o museu quer fazer um trabalho intenso junto das escolas (já têm marcações): estão prontos para transformar os nomes das crianças em chinês ou para lhes pôr um chapéu de Xangai na cabeça. É só apanhar o autocarro nº 12. Ou então tome nota: o Museu do Oriente fica na Avenida de Brasília. Não tem número.

Isabel Salema (PÚBLICO)



Última actualização a 13-06-2013
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