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Galerias Romanas da Rua da Prata

Por Daniel Rocha

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20.09.13

Desde a data da sua descoberta na sequência do grande terramoto de 1755, esta estrutura romana foi sendo alvo de múltiplas interpretações relativamente à sua função original, sendo hoje as teses quase unânimes em identificá-lo como sendo um criptopórtico.


As suas características construtivas, tipologia e materiais associados sugerem uma construção da época de Augusto, datada entre o século I a.C e o século I d.C. e contemporânea de outros grandes edifícios públicos da cidade de Olisipo.

A Descoberta

Em 1771 durante a reconstrução da cidade de Lisboa, na sequência do grande Terramoto de 1755, surgiram pela primeira vez notícias da existência de um vasto conjunto de Galerias Romanas no subsolo da Baixa. A incipiente noção de património de então, levaria a que apenas uma inscrição romana dedicada a Esculápio (Deus da Medicina) fosse salvaguardada. O edifício romano, constatada a sua grande robustez, serviria de alicerce aos prédios pombalinos.

Em 1859, obras de saneamento permitiram, pela única vez, observar restos das construções romanas que se erguiam sobre as Galerias. Foi então feito o levantamento exaustivo das ruínas, um dos trabalhos arqueológicos pioneiros na cidade de Lisboa, pela mão de José Valentim de Freitas. Visitas esporádicas, com finalidades jornalísticas e de investigação, iniciaram-se em 1909, sendo as Galerias à data conhecidas por "Conservas de Água da Rua da Prata" por serem utilizadas pela população como cisterna.

Abririam ao público com regularidade a partir dos anos 80 época em que foi possível à Câmara Municipal de Lisboa criar condições restritas de acessibilidade ao monumento. Actualmente são visitáveis uma vez por ano pois encontram-se com um nível de água elevado cuja bombagem é um processo moroso e que levantaria problemas de conservação do próprio edifício e dos edifícios pombalinos anexos se retirada mais amiúde.

A Função

A arquitectura e as técnicas de construção destas Galerias sugerem tratar-se de um monumento da época dos Imperadores Júlio-Cláudios (primeira metade do séc. I d.C.), contemporâneo de outros edifícios públicos da cidade romana de Olisipo.

Os últimos trabalhos arqueológicos do Museu da Cidade revelaram que as Galerias foram erguidas sobre uma muito espessa placa artificial de rija argamassa romana (opus caementicium- "antepassado remoto do betão") colocada sobre areia. A análise da arquitectura revelou também o emprego de proporções rigorosas no tamanho dos arcos, como se esperaria numa obra de época imperial romana.

As Galerias Romanas têm sido alvo de diversas interpretações, de Termas a Forúm Municipal, desde a sua descoberta. Conhecendo-se hoje melhor o seu entorno em época romana, ligado às actividades portuárias e comerciais, as propostas mais recentes indicam tratar-se de um «criptopórtico», erguido para suportar outras edificações de grande dimensão.

Os «criptopórticos» eram construções abobadas, empregues com alguma frequência pelos romanos em terrenos instáveis ou de topografia irregular para criar uma plataforma de suporte a outras edificações, normalmente públicas.

O achado sobre as Galerias da inscrição dedicada ao Deus Esculápio por dois sacerdotes do culto imperial, em seu nome e no do Município de Olisipo, parece confirmar o carácter público do edifício.

O que se pode ver

O acesso à totalidade do monumento foi truncado pela construção, desde o séc. XVIII, dos colectores de esgoto da cidade. A parte visitável é constituída por uma rede de galerias perpendiculares, de diferentes alturas, onde se destacam:

- Pequenos compartimentos (celas) dispostos lateralmente a algumas das galerias, que poderão ter sido utilizados na época romana como áreas de armazenamento

- Arcos em cuidada cantaria de pedra almofadada, técnica típica dos inícios da época imperial romana

- Abóbadas, onde são visíveis as marcas das tábuas de madeira que serviram para a sua construção e onde se pode observar várias aberturas circulares que serviram bocas de poço a partir de data desconhecida

- "Galeria das Nascentes", também chamada "dos Olhos de Água", que ostenta a fractura que divide em dois a parte hoje visitável do monumento. Nesta fenda brota a água proveniente do lençol freático e que irrompe inundando toda a área das galerias.

 

(Divisão de Museus e Palácios da Câmara Municipal de Lisboa)



Última actualização a 20-09-2013
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