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Palácio Nacional de Mafra

Por Daniel Rocha

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02.12.06 Por Carla B. Ribeiro

A imponente fachada do Convento de Mafra, flanqueada por duas torres sineiras, domina a área em seu redor, mas não deixa ver a verdadeira dimensão do enorme complexo setecentista que se esconde por trás.


"Era uma vez um Rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez."in Memorial do Convento, de José Saramago

Longe vão os tempos em que D. João VI, o príncipe regente, se refugiava dentro das colossais paredes do convento de Mafra, alimentando o seu gosto pela música sacra e mantendo-se assim longe dos movimentos antimonárquicos que proliferavam pela Europa do século XIX e, dizem as más-línguas, da sua mulher D. Carlota Joaquina.

Nessa altura, Mafra era uma verdadeira cidade real. Hoje, o gigantesco monumento barroco que alberga o Palácio Nacional, o Convento e a Basílica de Mafra já não alberga reis, mas continua a valer como uma cidade que parece dominar toda a paisagem envolvente.

Como aliás William Beckford, em Agosto de 1787, testemunhou: "É pouco interessante a perspectiva que se goza do adro da Basílica. O que se vê são os telhados de uma aldeia insignificante e uns cabeços de areia, destacando sobre uma estreita faixa de oceano. Da esquerda a vista é limitada pelos escarpados montes de Sintra e à direita, um pinhal, na quinta do Visconde de Ponte de Lima, é que dá aos olhos algum refrigério".

Mas a ideia original para Mafra não previa um investimento tão grandioso como o que viria a ser feito. A obra foi encomendada por D. João V e consistia num monumento religioso para agradecer a chegada do seu primogénito. A primeira pedra foi lançada em 1717, mas, à medida que chegavam aos cofres reais mais e mais riquezas do Brasil, o projecto foi redesenhado, acrescentado, e não se olhou a despesas para transformar o pequeno monumento naquilo que é hoje: 40 mil metros quadrados de construção com uma fachada de 200 metros de comprimento e uma altura que atinge os 68 metros nas duas torres; mais de cinco mil portas e cerca de 2500 janelas que escondem numerosas obras artísticas encomendadas pelo monarca à França, Flandres (de onde chegaram os dois carrilhões de 92 sinos, cujo peso se estima em mais de 200 toneladas) ou Itália; e uma biblioteca ricamente ornamentada com um acervo de cerca de 35 mil obras.

Não se pode dedicar apenas umas horas a conhecer o recinto - um dia será o período ideal para descobrir e absorver cada história de cada recanto. À porta da basílica, encontramos um voluntário que nos irá guiar pelos mistérios do monumento. Com ele as pedras ganham vida, as esculturas e os relevos parecem mover-se. Porque cada peça carrega consigo as origens dos materiais - as madeiras oriundas do Brasil, o bronze vindo da Flandres, a pedra comprada em Itália -, os percursos de quem lhes deu forma, as vidas de quem as financiou.

Uma visita acompanhada dá ainda acesso a zonas reservadas. Gil Mangens, por quem a idade parece não ter passado quando conta, com um entusiasmo contagiante, como todo aquele projecto foi possível, está lá todas as tardes de segunda a sexta. Da parte da manhã, outro voluntário encarrega-se do papel de anfitrião. E é com eles que vamos conhecer o corredor que poderia chamar-se "dos pecados", pelo facto de ser ali que se encontravam os confessionários masculinos - seis ao todo, três de cada lado; no corredor, diz-se, fazia-se fila -, que dá acesso à sacristia (as mulheres confessavam-se na basílica, no corredor lateral).

Aqui pode vislumbrar-se o chaveiro de todo o complexo, com as etiquetas ainda coladas dentro de um enorme baú. As chaves é que já não estão lá, mas também já não são as mesmas. As novas são carregadas pelo sr. Mangens e vão dando acesso a um contínuo de descobertas, como um reservatório de água embutido na parede e que alimentava as três torneiras de cada uma das quatro pias dos lavabos das sacristias.

Na nave central muito mudou e as celebrações religiosas são realizadas, hoje, fora do altar-mor. Os seis órgãos - dois dos quais escondidos e ainda em trabalhos de restauro - impõem-se e mesmo no silêncio pode ouvir-se a emoção da sua música. E não se pode sair sem deixar o olhar vaguear pelos tectos. No topo da cúpula, uma pomba a montar guarda à basílica e cujas dimensões ditadas pelo nosso guia parecem inverosímeis a partir do solo.

Em redor da basílica, dispõe-se o palácio, que se desenvolveu a partir dali. Aqui, pode visitar-se a farmácia, que ainda guarda alguns recipientes de fármacos e instrumentos usados para cirurgias, e o hospital de onde se podia assistir à missa sem sair da cama. Mas é no andar superior que estão guardados os maiores tesouros e onde se localizavam os aposentos reais. Cada uma das salas revela os gostos que a monarquia portuguesa alimentava com o ouro que chegava do Brasil, e depois com as pedras preciosas que atravessavam o Atlântico.

Mas para conhecer os requintes dos reis que passaram por Mafra é necessário perder-se no Jardim do Cerco que une o Palácio à Tapada de Mafra, coutada dos reis e onde hoje se pode praticar a caça mediante inscrição.

O jardim barroco exibe magníficos jogos de água e lagos, assim como os caminhos largos característicos do estilo. Uma beleza pura criada pelas mãos dos homens que se transforma ao chegar à Tapada de Mafra, onde se encontra uma vegetação em estado mais selvagem. Os temporais das últimas semanas deixaram os trilhos temporariamente encerrados, mas normalmente estão abertos ao público, quer para passeios pedestres quer para os circuitos em BTT.

Há ainda visitas em comboio articulado, de charrete ou a cavalo. Pelo caminho é possível cruzar-se com várias espécies de animais, como os javalis ou os gamos, sendo que para observar os lobos é necessário aproximar-se do cercado reservado para os mesmos.

No fim do dia, de regresso ao jardim, o melhor é aproveitar para recuperar energias ou então saborear a leitura do Memorial do Convento, de Saramago, onde o Nobel português da Literatura dá a sua visão muito própria da história do complexo e dos homens e mulheres que viveram a sua construção. Lido aqui, romance e convento ganham toda uma nova dimensão.

 



Última actualização a 11-10-2011
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