Guialazer

Livraria Utopia

Por Manuel Roberto

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16.01.01

O pequeno espaço da Rua da Regeneração, no Porto, junto ao quartel-general da Praça da República, não podia ser mais curioso para acolher a Livraria Utopia. A rigidez das normas militares ali ao lado contrasta com a filosofia libertária de Herculano Lapa, o homem que, desde há sete anos, dirige a livraria, que conta já 22 anos de história.


Nas prateleiras, há livros e revistas sobre anarquismo, marxismo crítico, situacionismo, dadaísmo, surrealismo, ecologia, autores "marginais", como Jack London e Baudelaire, e alguma poesia. Herculano Lapa integra-os todos numa "certa concepção do pensamento que estará dentro do espaço dos libertários". Há também alfarrábios e livros usados, mas Lapa não os considera identificadores da livraria e da sua filosofia.

É com visível entusiasmo que o livreiro fala da sua Utopia. Refere-se a ela ainda como "um projecto". "O objectivo da livraria é funcionar, não é ganhar dinheiro. É divulgar um projecto, uma certa perspectiva de querer transformar. Como dizia o Rimbaud, 'é preciso mudar a vida'. É preciso transformar o mundo, como dizia o Marx. Para se criar um mundo que vá ao encontro do Homem e da Natureza, é preciso criar algo de novo", diz.

"Para mim, isto é muito simples: é saber aquilo que eu não quero. É isso que me dá força e alento", acrescenta o livreiro (que, ao mesmo tempo, se recusa a ser fotografado). Herculano Lapa dirige a Utopia na Rua da Regeneração desde há sete anos, altura em que a livraria se separou da Centelha, editora de Coimbra que, por volta de 1982, fundou o espaço. "Aqui, no Porto, havia outras livrarias dentro de um certo espírito alternativo, de divulgação das ideias críticas e libertárias", diz. A Utopia "apareceu na altura em que as outras já tinham desaparecido".

"Esta cidade dá-me vontade de rir"

É com alguma amargura que Lapa fala sobre o Porto. Sendo um local privilegiado para a divulgação de um pensamento político "alternativo", seria provável que a Utopia fosse um espaço de discussão. Mas não é: "Esta cidade dá-me vontade de rir", diz o livreiro, que atribui à pequena "capacidade de animação" e à "pouca gente" interessada a falta de iniciativas no movimento libertário e intelectual portuense. A recente iniciativa artística "Quartel - Arte Trabalho Revolução" foi, segundo Lapa, "uma coisa muito esporádica". Para o livreiro, o pensamento crítico portuense parece estar estagnado.

Apesar do âmbito mais generalista, o livreiro cita a livraria Ler Devagar, em Lisboa, como exemplo da maior disponibilidade dos lisboetas para a "discussão e debate". "No Porto, vende-se tudo menos. Todo o tipo de literatura vende-se menos. Dentro dos meios universitários, a malta é muito carreirista". É assim que Herculano Lapa caracteriza a cidade em que decidiu viver e estabelecer negócio. Porém, este pessimismo não o faz esmorecer: "O que é importante é ter os textos críticos do ponto de vista político e cultural disponíveis".

O projecto de um autodidacta

Herculano Lapa assume-se como um autodidacta. Cita autores, relaciona teorias e aplica-as ao quotidiano com uma facilidade que não se adivinharia num homem que tem apenas a antiga 4ª classe. "A minha aproximação à vontade de querer viver num mundo sem opressão e com liberdade aconteceu no período do 25 de Abril [de 1974]. Comecei a ouvir falar em liberdade e igualdade e levei isso muito a sério", lembra o livreiro.

Lapa tinha então 17 anos. Era aprendiz na construção civil em Vila do Conde. As discussões políticas no trabalho, as ocupações de casas e campos e as greves e todo o fervor revolucionário fomentaram-lhe o gosto pela política. "Éramos umas 20 ou 30 pessoas. Juntávamo-nos para falar de política e cantar. Havia um espírito de comunidade, de malta que queria mudar alguma coisa. Querer mudar o mundo funcionava como uma aventura. Era uma tentativa de sermos actores da nossa própria vida. É isso que não se passa agora. Os papéis das pessoas são secundários", conta Lapa.

"De um momento para o outro, havia a possibilidade de mudar... Havia nesse período um clima favorável à discussão de rua", recorda. Daí até à leitura dos textos políticos, dadaístas e de "crítica do espectáculo" foi um passo: "Sou um autodidacta. Tive prazer nessas leituras, porque isso iria contribuir para o desenvolvimento da minha individualidade. Ganhei o gosto pela leitura".

Pedro Rios (PÚBLICO)



Última actualização a 08-10-2004
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