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Conservatório de Música de Sintra

Ensaio da Orquestra de Cordas do Conservatório de Música de Sintra
Ensaio da Orquestra de Cordas do Conservatório de Música de Sintra Por Miguel Manso

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11.06.15 Por Ana de Freitas

Em Maio, o Conservatório de Música de Sintra iniciou um projecto de angariação de fundos para construir um novo edifício, com mais 26 salas que o actual. Em 2017 esperam ter a nova casa de pé e os 3,5 milhões de euros para pagar o projecto de arquitectura


O ruído de fundo produzido pela afinação dos instrumentos dá lugar ao silêncio. Dois jovens músicos abraçam o instrumento, que os ultrapassa em tamanho, e eis que do silêncio irrompem as graves melodias dos seus contrabaixos.

Com os olhos pousados na partitura, os restantes músicos juntam-se aos primeiros deslizando o arco sobre as cordas dos instrumentos. São eles os primeiros e segundos violinos, as violas de arco e os violoncelos, organizados numa meia laranja. Os violinos existem em maior número, tal como acontece numa orquestra sinfónica.

Estamos no ensaio da Orquestra de Câmara de Cordas do Conservatório de Música de Sintra. No salão de 60 metros quadrados, os cerca de 25 músicos aconchegam-se no pouco espaço de que dispõem. As janelas com grades abrem sobre prédios sujos e cinzentos, mas estes jovens nem dão por isso. Através da música viajam para bem longe, até à Argentina. Hoje estão a fazer uma leitura à primeira vista de Libertango (1974), do compositor argentino Astor Piazzolla (1921-1992), uma nova peça no seu reportório.

"Não vos estou a ouvir, toquem com passione. O computador toca melhor do que vocês, mas há uma coisa que lhe falta, a alma", diz Paula Pestana, uma das responsáveis pela orquestra, que ocupa o lugar do maestro. Pede depois aos primeiros e segundos violinos que repitam sozinhos uma passagem da música para fazer correcções. "Vocês são nove e eu ouço onze sons diferentes." Aos violoncelos e contrabaixos pede um "som mais roufenho" e com ritmo.

Pedro Teixeira, outro dos professores responsáveis pela Orquestra de Cordas, explica que a leitura à primeira vista serve para os alunos perceberem quais são as suas maiores dificuldades antes de estudar individualmente a peça. "A seguir vamos provavelmente trabalhar por naipes, os violinos, as violas, os violoncelos e os contrabaixos."

Esta é a orquestra mais avançada do conservatório, seguindo-se depois a Orquestra de Cordas Juvenil e a Orquestra de Cordas Infantil. Existem depois outras classes de conjunto: o Coro Leal da Câmara, a Orquestra de Guitarras, o Quarteto de Saxofones, o Ensemble de Sopros e Percussão, o Ensemble de Clarinetes e o Ensemble de Metais.

Durante o ensaio, Inês Serrano, 17 anos, distingue-se pela alegria contagiante com que toca e interage com os colegas. Quando o PÚBLICO entrevista a jovem música, os seus olhos ainda brilham de satisfação. "Gosto mais do ensaio de orquestra, é mais divertido por causa do convívio." Com o seu sorriso atrevido, conta-nos que estuda no Conservatório de Sintra há oito anos mas que toca violino há treze. Aos quatro anos pediu um violino aos pais, que na altura pensaram que Inês "queria brincar um bocadinho". Mas não. "Essa paixão pela música nasceu aos quatro anos e durou até agora." E vai continuar: a jovem quer prosseguir estudos na Escola Superior de Música para mais tarde dar aulas ou tocar numa orquestra.

"O gozo da orquestra é que eles vêem a evolução. De repente, têm outro mundo à volta, querem ver o que os primeiros violinos ou os contrabaixos estão a fazer", diz Paula Pestana, sublinhando a importância destes ensaios no desenvolvimento dos jovens músicos. "São poucos os que seguem a carreira de concertistas, a maior parte deles vão ser músicos de orquestra, portanto a prática de orquestra é muito importante. Iniciam-se aos cinco, febre anos na orquestra infantil e depois passam para a juvenil, que é um grau intermédio entre a orquestra infantil e a de câmara."

38 anos de história

O Conservatório de Música de Sintra, na altura Associação Musical de Rio de Mouro, surgiu em 1975, com cursos de música, teatro e dança. Nos primeiros quatro anos funcionou na Casa-Museu Leal da Câmara e, em 1979, passou para o actual edifício, cedido pela Junta de Freguesia de Rio de Mouro. Desde então, tem vindo a especializar-se no ensino da música, vendo os seus cursos reconhecidos pelo Ministério da Educação em 1982. Em 2007 passou a designar-se Conservatório de Música de Sintra - Associação de Música e Dança.

Actualmente, é a única escola com ensino oficial de música no concelho de Sintra, dando formação a cerca de 450 alunos, desde o curso de iniciação musical - que abrange a música para bebés e iniciação musical -aos cursos de ensino básico e secundário, passando pelos cursos livres.

Trinta e oito anos depois da sua fundação, o conservatório dá início ao projecto de angariação de fundos para a criação de um novo edifício. Com a Missão 2017 (data em que se pretende ter a nova escola a funcionar), a direcção espera angariar 3,5 milhões de euros, provenientes de mecenatos, patrocínios, crowdfunding (financiamento colectivo através da Internet) e candidaturas a fundos estrangeiros, nos próximos cinco anos.

A construção de novas instalações para a escola tem sido uma aspiração de todas as direcções ao longo das últimas três décadas mas em 2005/2006 tornou-se ainda mais prioritária devido ao aumento do número de alunos (de 187 para 366 alunos). A actual directora do conservatório lembra-se de ter havido um projecto de arquitectura em cima da mesa no início da década de 1990, quando ainda era aqui aluna, que depois não chegou a avançar por falta de financiamento. "Não pretendo que isso se repita", assegura.

Depois de garantido um terreno em Rio de Mouro, cedido pela Câmara Municipal de Sintra, a primeira fase do projecto arrancou no dia 4 de Maio no Centro Cultural Olga Cadaval, com o concerto Audácia, no qual a fadista Mafalda Arnauth se associou aos coros e orquestra do conservatório.

Ainda este ano, a 5 de Outubro, será anunciado o projecto de arquitectura vencedor, escolhido por um júri composto pela direcção, os arquitectos João Carrilho da Graça, José Prata e Pedro Pacheco e o Engenheiro Nuno Santos.

O desafio foi lançado a nove ateliersde arquitectura, devendo o novo projecto dar resposta às necessidades de alargamento do actual edifício e valorizar o território envolvente. "O objectivo é requalificar o local e criar um edifício que marque a diferença numa paisagem caracterizada pelos edifícios cinzentos dos subúrbios", disse Raquel Coelho, apontando a falta de espaço como a principal falha nas actuais instalações.

As catorze salas, espalhadas pelo edifício principal, três lojas e um contentor, com dimensões que não ultrapassam os 30 metros quadrados, revelam-se insuficientes para dar resposta aos quase 400 alunos que vêm à escola ter as aulas de iniciação musical, classe de conjunto e instrumento. "Exige uma grande ginástica, estamos sempre a tentar inventar mais espaço e a alugar lojas em cima", explica. Essa dispersão de salas torna necessária a presença de duas vigilantes para controlar a circulação das crianças e jovens.

Mediateca e auditório

O novo conservatório terá no mesmo edifício 40 salas para as aulas teóricas e de instrumento e salas de ensaio com cem metros quadrados. "Este edifício vai permitir alargar o número de alunos, permitir a criação de novos cursos na área da música e dança e ter outro tipo de actividades que complementem a formação dos alunos", explicou Raquel Coelho. Para além de todas essas salas, está prevista a construção de uma mediateca e de um auditório com 200 lugares que, segundo a directora, pretende ser uma mais-valia para o concelho. "No fundo, será uma sala de cultura e de espectáculos do concelho, numa área que tem muito pouca oferta cultural."

Os alunos das várias freguesias do concelho chegam ao conservatório muito jovens. Nas aulas de iniciação musical, as crianças de seis e sete anos entusiasmam-se com facilidade. Sentados ainda não chegam com os pés ao chão, mas já estão familiarizados com os ritmos e melodias. "O que é que estamos a fazer?", pergunta a professora Olívia Lucas. "A ler uma frase rítmica no quadro", respondem em uníssono. Começam por ler o ritmo com a voz, depois com as palmas e por último com os instrumentos de percussão.

"Eu consigo dizer [o ritmo] muito rápido!", exclama Daniel. Atrapalha-se a meio da leitura, leva as mãos à cabeça e esboça um sorriso tímido. Enquanto a professora distribui as maracas, triângulos e tamborins, alguns dos alunos experimentam tocar os instrumentos que lhes chegam às mãos. "Qual é a regra número um?", pergunta a professora. "Não tocar antes de o maestro mandar", responde Catarina, com o seu olhar vivo.

"Nestas actividades damos os conteúdos básicos, rítmicos e melódicos, de uma forma lúdica. Tentamos fazer tudo com jogos e brincadeiras. Mas enquanto brincam estão a assimilar os conceitos e a pô-los em prática. Quando vão para a aula de instrumento, tudo se torna mais fácil porque compreendem a lógica dos ritmos e das notas musicais", explica a professora Olívia Lucas.

A orquestra é o culminar de tudo. Os jovens músicos da orquestra de cordas já têm todas estas competências assimiladas. Para trás estão as aulas de iniciação musical e muitas horas de estudo. Quem assiste aos concertos dos jovens músicos não imagina os cubículos sem janela em que têm as aulas de instrumento. "As condições não são muitas mas quando fazemos um concerto fora as pessoas admiram-se porque fazemos milagres. Os miúdos superam-se e gostam de apresentar o seu trabalho", disse o professor Pedro Teixeira.

A Missão 2017 é um desafio diferente de todos os que já enfrentaram. "No fundo, temos de mudar a escala. Até agora, temos estado a trabalhar no nosso mundo. Agora estamos a chegar a um mundo novo", disse Raquel Coelho, directora do conservatório.

Enquanto não chegam a esse mundo novo - um novo edifício também em Rio de Mouro -, os jovens músicos voam até à Argentina, embalados pelas notas de Piazzolla.



Última actualização a 11-06-2015
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